Presença feminina na construção civil cresce, mas segue limitada a 11,50% em 2024, com desigualdade salarial e baixa liderança apesar de iniciativas da CBIC
Levantamentos oficiais indicam avanço, mas a participação de mulheres na construção civil segue baixa e concentrada longe da liderança
A participação de mulheres na construção civil aumentou nos últimos anos, mas ainda está longe do equilíbrio. De acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Emprego, as mulheres eram 11,50% da força de trabalho do setor ao fim de 2024. O dado reforça que as barreiras estruturais seguem atuando no mercado.
Para a CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), o retrato é de avanço insuficiente para mudar a base do setor. A vice-presidente de responsabilidade social da entidade, Ana Cláudia Gomes, avalia que a indústria “ainda não reflete” a presença feminina da sociedade e enfrenta obstáculos culturais e operacionais. No canteiro, a presença é ainda menor nas funções diretamente ligadas à obra.
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Mesmo com o crescimento acumulado, o salto não se converteu em paridade. Segundo a RAIS, o número de mulheres com carteira assinada na construção aumentou 184% entre 2006 e 2023. Ainda assim, a estrutura do emprego e da liderança não acompanhou esse movimento no mesmo ritmo.
O cenário também inclui relatos de desigualdade salarial entre profissionais que exercem a mesma função. Para especialistas do setor, como Ana Cláudia, além de atrair mulheres para o setor, é preciso garantir condições de permanência, crescimento e reconhecimento nas empresas.
Participação feminina cresce, mas segue distante do equilíbrio
Os números mais recentes mostram o tamanho da distância. Ao final de 2024, a RAIS apontou 338.858 trabalhadoras na construção civil, contra 2.607.964 trabalhadores homens. Na prática, as mulheres representavam 11,50% e os homens 88,50% do total de vínculos formais no setor.
Esse quadro contrasta com a composição demográfica brasileira. Segundo o IBGE, as mulheres são 51,5% da população do país, sinalizando uma sub-representação significativa da mão de obra feminina na construção quando comparada à sua presença na sociedade.
Desigualdade salarial e sub-representação na liderança
Além de estarem em menor número, muitas profissionais seguem enfrentando diferença de remuneração para funções equivalentes, de acordo com a CBIC. A prática, relatada por trabalhadoras e entidades do setor, reforça que o problema não se limita ao acesso, mas também à qualidade do vínculo e às oportunidades de ascensão.
No topo das organizações, o cenário é parecido. A pesquisa Women in Business 2026, da consultoria Grant Thornton, indica que 38% dos cargos de liderança no Brasil são ocupados por mulheres. Embora o índice supere a média global, o estudo aponta que os níveis mais altos de decisão ainda concentram homens.
Para especialistas, a baixa presença feminina na gestão retroalimenta barreiras no recrutamento, na promoção e na cultura interna. Sem referências em posições estratégicas, políticas de equidade tendem a avançar mais lentamente e com menor alcance.
Formação, engenharia e funis que ainda excluem mulheres
O caminho da formação ajuda a explicar parte do desequilíbrio. Segundo o Painel Estatístico do Censo da Educação Superior, do Ministério da Educação, em 2024 havia 277.606 mulheres matriculadas em cursos de Engenharia, Produção e Construção, o que representa 31,28% do total. No mesmo período, 609.915 homens cursavam essas áreas, equivalentes a 68,72% das matrículas.
Para Ana Cláudia Gomes, a presença crescente de alunas na engenharia indica um potencial de mudança no médio e longo prazo. Há expectativa de maior oferta de mão de obra qualificada feminina, que pode chegar aos canteiros e aos escritórios de projeto conforme os cursos formarem novas turmas.
Apesar disso, o funil segue estreito nas ocupações diretamente ligadas à obra e à operação. A transição da sala de aula para o canteiro ainda encontra resistências culturais, falta de infraestrutura adequada e práticas de contratação historicamente voltadas ao público masculino.
No momento em que a construção civil acelera a adoção de tecnologia e inovação, organizações do setor defendem que a diversidade gera ganhos de produtividade e competitividade. Para a CBIC, deixar de aproveitar o talento de mulheres significa desperdiçar capital humano em um mercado que precisa de eficiência.
A ampliação da participação feminina, portanto, passa por políticas de recrutamento inclusivo, ajustes de jornada e benefícios, e métricas de equidade salarial. Empresas que institucionalizam metas e indicadores tendem a acelerar a mudança cultural.
Projetos da CBIC, qualificação e porta de entrada para o canteiro
Para enfrentar as barreiras, a CBIC desenvolve o projeto Elas Constroem, com foco em formação, qualificação e inserção de mulheres na indústria. O piloto realizado em 2025 envolveu 10 entidades associadas em nove estados brasileiros e formou mais de 200 mulheres em cursos voltados a atividades da construção. A iniciativa é feita em parceria com o SENAI e inclui a aproximação com empresas para facilitar o encaminhamento ao emprego.
Segundo a entidade, o programa mapeia ocupações com maior demanda, oferta capacitação aderente e acompanha a entrada das participantes no mercado. Além da qualificação técnica, a proposta inclui estimular a mudança de cultura nas empresas, combatendo estigmas e removendo barreiras operacionais que dificultam a permanência das profissionais.
Liderança com mais mulheres, mudança cultural e estratégia de negócio
Outra frente é o Elas no Conselho, iniciativa da CBIC que incentiva a presença de mulheres em instâncias de liderança e governança nas companhias e entidades do setor. A aposta é que ampliar vozes femininas no topo acelera a transformação organizacional e cria referências para novas gerações.
Na avaliação de lideranças do setor, diversidade não é apenas inclusão, é estratégia de negócio. Ao incorporar diferentes perspectivas, empresas tomam decisões mais informadas, inovam com mais consistência e respondem melhor às exigências de produtividade, segurança e qualidade.
Para avançar, especialistas defendem ação combinada de formação, revisão de práticas de contratação e promoção, correção de assimetria salarial e metas de participação feminina. Em síntese, trata-se de aproveitar plenamente o talento das mulheres em um setor vital para a economia.
Queremos ouvir sua opinião. O que mais pesa para ampliar a presença de mulheres na construção civil, a qualificação profissional, a mudança cultural nas empresas ou políticas claras de equidade salarial e liderança? Deixe seu comentário e enriqueça o debate.
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