Mesmo com desemprego no menor nível histórico e massa salarial maior, produtividade do trabalho no Brasil cresce pouco desde 2012 e salários de entrada recuam em meio a vagas de baixa qualidade
Desemprego recua e massa salarial avança, porém a produtividade segue quase parada e o país perde espaço na comparação internacional
O Brasil registra desemprego baixo e aumento da massa salarial, mas a produtividade do trabalho quase não reagiu na última década. Esse descompasso ajuda a explicar por que o crescimento segue contido mesmo com mais gente ocupada. Especialistas alertam para a qualidade das vagas criadas e o risco de a expansão atual não se sustentar.
De acordo com o IBGE, a taxa de desocupação fechou 2025 em 5,1%, o menor patamar da série iniciada em 2012, e ficou em 5,4% em janeiro de 2026. No auge da pandemia, em setembro de 2020, o desemprego chegou a 14,9%, queda de 9,8 pontos percentuais do pico à mínima. O aquecimento do mercado de trabalho impulsionou a renda e o consumo.
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A produtividade, porém, avançou pouco. Em setembro de 2018, um trabalhador produzia 5,6% mais do que em 2012; em setembro de 2025, o ganho acumulado era de 8,3%, com o maior nível observado no período pandêmico. O indicador, essencial para elevar o padrão de vida e a competitividade, segue aquém do necessário.
Os dados de produtividade aqui mencionados são da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e da Penn World Table, compilados pelo Our World in Data, que, embora com pequenas variações, retratam o mesmo quadro. Na prática, o país emprega mais, mas produz pouco mais por trabalhador.
Desemprego cai, produtividade do trabalho avança pouco
Em teoria, um mercado apertado de trabalho deveria estimular empresas a investir em tecnologia, treinamento e processos para produzir mais sem apenas contratar. No Brasil, esse ciclo ainda não ganhou tração, e os ganhos têm sido marginais desde 2012. O hiato entre ocupação e produtividade limita o crescimento do PIB potencial.
Parte do setor produtivo opera sob juros elevados e incerteza, o que reduz o apetite por investimentos de longo prazo. Assim, mesmo com mais pessoas empregadas, a eficiência e a intensidade tecnológica das operações não avançam no mesmo ritmo.
Sem uma aceleração da produtividade, o aumento do emprego gera crescimento mais modesto de valor adicionado, pressionando margens e restringindo ganhos reais e duradouros de renda.
Comparação internacional, Brasil anda devagar frente a pares e desenvolvidos
Desde 2010, a produtividade mais do que dobrou na China e subiu 51,9% na Índia, mostram séries da OIT e da Penn World Table via Our World in Data. Nas economias avançadas, houve altas de 14,5% nos Estados Unidos e 16,2% na Alemanha até 2023. O Brasil cresceu 8,7% no mesmo período.
Entre os países do G7, o Japão tem a produtividade mais baixa, mas ainda mais que o dobro da brasileira, quando comparada em dólares por paridade de poder de compra (PPP) com números de 2024. A distância reforça o desafio competitivo brasileiro.
Essa defasagem limita a capacidade de exportar com valor agregado, de pagar salários mais altos e de sustentar crescimento com bem-estar. Em suma, sem produtividade, o país corre mais e avança menos.
Vagas de baixa qualidade e salários de admissão estagnados
Especialistas apontam que a expansão recente do emprego ocorreu, majoritariamente, em postos de baixo valor agregado. Isso ajuda a entender por que a produtividade empaca mesmo com a ocupação recorde.
Os números do Caged mostram que o salário médio de admissão foi de R$ 2.389,50 em janeiro de 2026, abaixo dos R$ 2.424,47 de janeiro de 2020 (valores reais), queda de 1,8%. O esperado seria ganho maior, dado o aumento real do salário mínimo e a inflação mais controlada no período.
Por trás desse quadro estão fatores como custo de capital alto, atraso tecnológico e descompasso de qualificação entre a oferta e a demanda por trabalhadores. Em conjunto, eles pressionam os salários de entrada e freiam avanços de produtividade.
Enquanto a porta de entrada paga menos, a capacidade de ascensão via acúmulo de produtividade também fica comprometida, reforçando um círculo de baixa qualificação e baixa eficiência.
Renda média e composição do emprego indicam avanço maior na informalidade
Dados do IBGE indicam que, desde o início de 2019, a renda média real dos empregados com Carteira assinada subiu 6,39%, enquanto a dos informais avançou 31,0% e a dos autônomos, 25,7%. Esse descolamento sugere que os maiores ganhos vieram de segmentos menos estruturados.
Embora positivos para o consumo no curto prazo, esses movimentos costumam estar associados a produtividade limitada e a menor capacidade de investimento por trabalhador, o que reduz o ritmo de avanços futuros.
Para sustentar crescimento, o país precisa migrar parte dessa expansão para postos formais mais qualificados, típicos de atividades com maior conteúdo tecnológico e processos mais eficientes.
Setores que puxaram a ocupação, serviços e comércio lideram enquanto indústria perde fôlego
No pós-pandemia, o emprego cresceu sobretudo em serviços e comércio, setores que, em média, pagam salários menores e têm produtividade mais baixa. A indústria foi o segmento com menor expansão do emprego e a agropecuária encolheu.
Como a indústria costuma concentrar vagas de maior qualificação e difusão tecnológica, sua perda de dinamismo ajuda a explicar por que a produtividade geral avança pouco, mesmo com a ocupação em alta.
O que pode destravar a produtividade, educação, investimento e ambiente de negócios
Uma agenda de educação é central: trabalhadores mais bem formados produzem mais e se adaptam melhor a tecnologias. Programas de qualificação técnica e requalificação contínua ampliam a produtividade tanto no setor privado quanto no serviço público.
Mais investimentos em máquinas, automação e software elevam a produção por hora trabalhada. Com financiamento acessível e previsibilidade, empresas conseguem modernizar processos e escalar eficiência.
Ganhos também vêm de competitividade e melhor ambiente regulatório. Regras claras e abertura à concorrência estimulam inovação, reduzem custos e aumentam a produtividade, inclusive sem grandes saltos tecnológicos.
Segundo João Mário Santos de França, pesquisador do FGV Ibre, a queda do desemprego foi impulsionada por estímulos fiscais e pela melhora da renda via salário mínimo e inflação sob controle. Ele alerta que o avanço do emprego em ocupações de menor valor agregado não é sustentável por muito tempo e defende buscar ganhos em gestão, processos e eficiência gerencial para destravar a produtividade onde mais se emprega.
Debate sobre jornada de trabalho em 2026, produtividade como peça central
O Congresso do Brasil discute em 2026 reduzir a jornada para garantir pelo menos dois dias de descanso por semana e, possivelmente, diminuir as atuais 44 horas semanais. A discussão ocorre enquanto o país tenta conciliar bem-estar laboral com crescimento sustentado.
Experiências internacionais mostram que maior produtividade pode permitir semanas de trabalho menores com manutenção da renda. Sem eficiência, porém, cortes de jornada tendem a pressionar custos e agravar a competitividade.
Queremos ouvir você. A produtividade deve ser atacada primeiro por educação e qualificação ou por investimentos e ambiente de negócios? Como equilibrar redução de jornada e competitividade? Deixe seu comentário e participe do debate.
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