Túneis perfeitos em rochas de desertos na Namíbia, em Omã e na Arábia Saudita alimentam hipótese de micro-organismo inédito que perfura carbonatos e pode afetar o ciclo do carbono
Em desertos africanos e árabes, geólogos relatam túneis microscópicos com padrão geométrico inusitado em mármores e calcários. As estruturas, alinhadas e profundas, não batem com processos físicos conhecidos e sugerem atividade biológica antiga.
Em afloramentos de rocha na Namíbia, em Omã e na Arábia Saudita, geólogos encontraram túneis microscópicos organizados com precisão. A descoberta, que começou a ser notada há mais de 15 anos na Namíbia, mostra tubos retos e paralelos como se tivessem sido perfurados por instrumentos delicados. A regularidade e a orientação perpendicular à superfície chamaram a atenção desde o início.
Esses microtúneis medem cerca de 0,5 milímetro de largura e podem alcançar até 3 centímetros de profundidade. A olho nu, as rochas parecem comuns, mas cortes finos sob microscópio revelam faixas verticais perfeitamente alinhadas. Em muitos casos, os túneis partem de fraturas naturais e mantêm espaçamentos relativamente constantes.
Veja também
Segundo os pesquisadores que analisaram as amostras, as estruturas não combinam com erosão por vento, dissolução química comum ou movimentos tectônicos. A hipótese dominante hoje é que se trate de vestígios de um micro-organismo endolítico desconhecido, capaz de perfurar carbonatos em busca de nutrientes. Essa possibilidade ganhou força com a análise química e isotópica dos materiais que preenchem os túneis.
A idade estimada das estruturas, entre 1 e 3 milhões de anos, ajuda a explicar por que ainda não há DNA recuperável ou micróbios vivos em cultura. Mesmo assim, o conjunto de indícios geológicos, geoquímicos e morfológicos sustenta a ideia de atividade biológica passada em ambientes extremamente áridos e pobres em luz.
Geometria e escala dos microtúneis revelam padrão que foge de processos físicos conhecidos
As galerias são retas, paralelas e perpendiculares à superfície, algo difícil de conciliar com processos aleatórios de fraturamento ou dissolução. Em três regiões separadas por milhares de quilômetros, o desenho geométrico se repete em rochas carbonatadas, reforçando que não é um acaso local. A repetição do padrão em mármores da Namíbia e em calcários cretáceos de Omã e da Arábia Saudita amplia a robustez do achado.
Por serem pequenos demais para animais e organizados demais para rachaduras simples, os túneis desafiam as explicações clássicas. A orientação, os espaçamentos e a origem frequente em fraturas naturais sugerem um agente que percebe e responde ao ambiente rochoso durante o avanço.
Esse comportamento direcional, mantido ao longo de centímetros, indica um mecanismo de controle que mantém a perpendicularidade e evita cruzamentos. A morfologia, portanto, é uma das chaves que empurram a interpretação para uma origem biológica.
Química seletiva nos preenchimentos internos sugere metabolismo e matéria orgânica fossilizada
De acordo com análises detalhadas, cada túnel está preenchido por uma película de carbonato de cálcio quimicamente distinta da rocha ao redor. Esse material é pobre em ferro, manganês e estrôncio quando comparado à matriz hospedeira, um empobrecimento seletivo que lembra filtragem metabólica em vez de simples precipitação inorgânica.
As proporções de isótopos de carbono e oxigênio nos depósitos internos não batem com a rocha original, o que sugere reações bioquímicas associadas à decomposição de matéria orgânica. Usando espectroscopia Raman, pesquisadores detectaram vestígios de carbono orgânico fossilizado, e concentrações de fósforo e enxofre nas paredes internas apontam para resíduos de membranas celulares e proteínas.
Organização coletiva descrita como inteligência química indica evasão mútua e uso eficiente da rocha
As galerias raramente se cruzam e mantêm espaçamentos relativamente constantes, o que sugere um mecanismo de sinalização que evita sobreposição. Cientistas descrevem esse padrão como uma inteligência química, um comportamento coletivo guiado por gradientes moleculares, sem qualquer noção de pensamento, mas eficiente.
Essa organização não lembra hifas de fungos, canais de vermes ou colônias típicas de cianobactérias. Em vez disso, aponta para um modo de vida altamente especializado em explorar o interior de rochas carbonatadas, regulando a distância entre túneis para maximizar o acesso a recursos limitados.
A repetição do arranjo em ambientes áridos distintos fortalece a tese de um comportamento endolítico adaptado a condições extremas. O padrão sugere que os micro-organismos respondiam a sinais químicos emitidos pela própria rocha ou por seus metabólitos.
Modelo de escavação biológica explica avanço perpendicular e camadas de crescimento ao longo do tempo
O modelo proposto envolve a liberação de ácidos orgânicos que dissolvem o carbonato de cálcio à frente da célula, permitindo avanço gradual perpendicular à superfície. O material dissolvido seria então expulso e recristalizado para trás, preenchendo o túnel recém-aberto com um depósito quimicamente distinto.
A orientação perpendicular constante pode ser guiada por gradientes químicos na rocha, conduzindo o crescimento para regiões menos exploradas. Essa mesma lógica explicaria a evasão mútua entre túneis vizinhos, reduzindo competição por nutrientes incrustados na matriz carbonatada.
Em alguns locais, os pesquisadores observaram camadas concêntricas dentro dos túneis, lembrando anéis de crescimento em árvores. Isso indica fases alternadas de atividade, possivelmente ligadas a variações de umidade, temperatura ou ao fornecimento intermitente de nutrientes ao longo de milhares de anos.
Segundo a hipótese, esses micróbios se alimentariam de compostos orgânicos preservados desde antigos ambientes marinhos, como pequenos bolsões de hidrocarbonetos. Essa estratégia explicaria a persistência do avanço mesmo em ambientes com luz escassa e extrema aridez.
O resultado é uma rede ordenada de microgalerias que registra, em escala milimétrica, a história da interação entre vida e pedra. As estruturas preservadas funcionam como um arquivo de processos biogeoquímicos de longo prazo.
Consequências no ciclo do carbono podem somar ao longo de milhões de anos e alterar reconstruções climáticas
Mármore e calcário são grandes cofres de carbono na forma de carbonato de cálcio. Se micro-organismos corroeram silenciosamente essas rochas em desertos com vastas superfícies expostas, pequenas liberações locais de carbono podem ter se acumulado ao longo de milhões de anos, afetando o balanço entre litosfera e atmosfera.
Modelos que reconstroem a história do CO2 atmosférico costumam considerar dissolução química natural e vulcanismo. A ação de micro-organismos perfurando carbonatos, se for comum, adiciona um novo componente potencialmente relevante a essas contas climáticas.
O que ainda falta comprovar, lacunas de DNA e próximos passos sugeridos pela comunidade
Apesar dos indícios, ninguém conseguiu recuperar DNA, proteínas ou moléculas biológicas bem preservadas nesses túneis. A idade estimada, entre 1 e 3 milhões de anos, somada às condições desérticas, tende a degradar quase todo material orgânico mais delicado, mantendo apenas traços geoquímicos.
Isso coloca a ciência diante de uma evidência essencialmente indireta, embora convergente em múltiplas frentes. Faltam micróbios em cultura e imagens inequívocas de células que um dia teriam escavado as galerias, o que impediria, por ora, uma classificação biológica formal.
Pesquisadores sugerem ampliar a busca por estruturas semelhantes em outros afloramentos de calcário e mármore mundo afora. A recomendação é reexaminar cortes finos antigos sob novas técnicas analíticas, incluindo espectroscopias sensíveis a orgânicos e mapeamento químico de alta resolução.
Segundo os geólogos envolvidos, a confirmação definitiva exigirá encontrar nichos mais jovens, onde biomarcadores tenham melhor preservação. Até lá, o debate segue apoiado em morfologia, química e isotopia, linhas de evidência que, juntas, compõem um quadro biológico plausível.
O que você acha dessa hipótese de vida perfurando rochas no subsolo árido, um registro de atividade invisível que pode mexer no ciclo do carbono? Para alguns, os indícios já são convincentes; para outros, ainda faltam provas diretas. Deixe seu comentário dizendo se esses túneis são obra de um micróbio engenheiro ou se você vê uma explicação puramente geológica.
Sobre o Autor
0 Comentários