Tartarugas-gigantes voltam à Ilha Floreana após mais de 180 anos, marco histórico reacende a restauração ecológica e une ciência e comunidade em Galápagos
Ilha Floreana volta a receber tartarugas-gigantes após mais de um século e meio, em uma ação inédita de restauração.
Foram soltas 158 Chelonoidis niger niger, com apoio científico e participação ativa da comunidade local.
Após mais de 180 anos, as tartarugas-gigantes (Chelonoidis niger niger) voltaram a caminhar pela Ilha Floreana, no arquipélago de Galápagos, na costa do Equador. A soltura de 158 indivíduos ocorreu na sexta-feira (20/02) e integra o maior projeto de restauração em curso no arquipélago, segundo a Galápagos Conservancy e o Parque Nacional de Galápagos.
O retorno foi possível graças a um esforço conjunto que envolveu pesquisa genética, reprodução em cativeiro e engajamento de moradores. Floreana tem cerca de 160 habitantes, e a participação da comunidade foi considerada estratégica para a logística e a vigilância ambiental, de acordo com a Island Conservation.
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A base científica da reintrodução começou no ano 2000, quando análises de DNA identificaram, no Vulcão Wolf (norte da Ilha Isabela), tartarugas com ascendência de Floreana. A partir daí, um programa de reprodução gerou descendentes com perfil genético próximo ao da população original extinta na ilha.
As tartarugas-gigantes são vistas como espécies-chave em Galápagos. Elas dispersam sementes, mantêm áreas abertas e influenciam a regeneração da vegetação, criando condições para o retorno de outras espécies nativas e fortalecendo todo o ecossistema, segundo a Fundação Charles Darwin.
Reintrodução na Ilha Floreana, 158 tartarugas e uma data histórica
A liberação dos animais marcou um ponto de virada para a ilha que mais sofreu com a ação humana entre as treze ilhas de Galápagos. A operação, liderada pela Galápagos Conservancy em parceria com o Parque Nacional de Galápagos, foi planejada para garantir bem-estar animal e rápida adaptação no novo habitat.
Para Hugo Mogollón, presidente e CEO da Galápagos Conservancy, a ação coroou “anos de pesquisa genética e colaboração em conservação”. Segundo a organização, o objetivo foi reconstituir a linhagem mais fiel possível à tartaruga-gigante-de-Floreana, assegurando uma base sólida para a restauração dos ecossistemas da ilha.
Moradores participaram das etapas de apoio e monitoramento, consolidando uma agenda de conservação que também valoriza o modo de vida local. Em Floreana, turismo, agricultura e pesca dependem diretamente da saúde ambiental da ilha, destacam as entidades envolvidas.
Ciência por trás da restauração, genética do Vulcão Wolf e a linhagem de Chelonoidis niger niger
O elo perdido surgiu quando, em 2000, testes de DNA identificaram no Vulcão Wolf tartarugas com ascendência de Floreana, extintas localmente havia quase dois séculos. A descoberta permitiu iniciar um programa de reprodução para aproximar a nova população da genética original.
Segundo a Galápagos Conservancy, essa estratégia garante que as funções ecológicas típicas da espécie sejam retomadas com o máximo de fidelidade. A linhagem compatível reforça a chance de adaptação e sucesso reprodutivo ao longo dos próximos anos.
Para Rakan Zahawi, diretor-executivo da Fundação Charles Darwin, as tartarugas moldam a vegetação, criam micro-habitats como áreas de banho e influenciam a dinâmica de paisagens inteiras. Essas interações beneficiam múltiplas espécies que dependem dos processos ecológicos reativados.
O retorno dos quelônios é, portanto, também o retorno de um conjunto de processos naturais perdidos. A restauração com base genética sólida busca reduzir riscos e ampliar os ganhos para a biodiversidade.
Pressões históricas e espécies invasoras, como Floreana perdeu suas tartarugas-gigantes
No passado, piratas caçavam tartarugas-gigantes para consumo, contribuindo para o colapso da espécie em Floreana. A introdução de espécies invasoras — porcos selvagens, cabras, vacas e cães — agravou a perda de fauna e a degradação do habitat nativo.
De acordo com a Island Conservation e parceiros, projetos recentes de erradicação de invasoras abriram caminho para reintroduções seguras. Esse trabalho de base era indispensável para evitar que os mesmos vetores de impacto voltassem a ameaçar os animais soltos.
Impacto ecológico e benefícios à biodiversidade, efeito cascata em aves, recifes e pesca
As tartarugas-gigantes atuam como engenheiras do ecossistema. Ao pastar e se deslocar por longas distâncias, mantêm clareiras e corredores ecológicos, facilitando a germinação e a dispersão de sementes de plantas nativas.
Essas mudanças estruturais favorecem o retorno de aves que dependem de áreas abertas para nidificação. Com mais ninhos e colônias estáveis, há aumento no aporte de nutrientes ao solo por meio de guano e detritos orgânicos.
Segundo a Fundação Charles Darwin, esse pulso de nutrientes pode transbordar para ambientes costeiros e marinhos. O resultado é um efeito cascata que beneficia recifes de coral e a cadeia trófica costeira, incluindo a pesca artesanal.
Com a volta das funções ecológicas de topo, a ilha tende a recuperar resiliência frente a secas, eventos climáticos e invasões biológicas. A presença das tartarugas fortalece a estabilidade ecológica necessária para que outras espécies nativas prosperem.
O monitoramento de médio e longo prazo será essencial para medir sobrevivência, reprodução e expansão das tartarugas em Floreana. As instituições indicam que os dados coletados orientarão ajustes de manejo e novas reintroduções.
Próximos passos em Galápagos, doze espécies nativas e uma economia local mais resiliente
O Projeto de Restauração Ecológica de Floreana prevê a reintrodução de doze espécies nativas, afirma a Island Conservation. Para Penny Becker, CEO da organização, restaurar ilhas é permitir que natureza e comunidades prosperem lado a lado.
A representante comunitária Verónica Mora ressalta que o retorno das tartarugas demonstra o poder da união local com parceiros de conservação. Em uma ilha onde turismo, agricultura e pesca dependem de ecossistemas saudáveis, a reintrodução é também uma estratégia socioeconômica para o futuro de Floreana.
Localizada no Equador, entre as treze ilhas de Galápagos, Floreana volta a ocupar um papel de referência em restauração insular. O caso combina ciência, gestão de invasoras e engajamento social, oferecendo um roteiro replicável para outras ilhas.
O que você acha da volta das tartarugas-gigantes a Floreana? A reintrodução é o melhor caminho quando há risco de novas invasões ou faltam recursos para monitorar a longo prazo? Deixe seu comentário, concordando ou discordando, e diga como equilibrar conservação e qualidade de vida da comunidade local.
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