Do barulho da cidade ao silêncio das cigarras, a história do casal que trocou a pressa por um vinhedo boutique em Urupema com chalés, exclusividade e frio inspirador
Projeto de vida na serra catarinense em meio ao rio Lavatudo, parreirais de altitude e chalés aconchegantes. Uma transformação feita a muitas mãos, com tempo, carinho e um propósito claro de viver com mais calma. Uma narrativa de recomeço que combina natureza, vinho e hospitalidade.
No alto de Urupema, na localidade de Taipas de Urupema, Adriana e Miguel encontraram o que chamam de pequeno paraíso. O projeto de vida começou pela busca de qualidade de vida e pelo amor declarado ao clima frio. Lá, ergueram um vinhedo boutique e uma pousada de chalés, planejados para receber com simplicidade, conforto e atenção aos detalhes.
Ela, gaúcha de Augusto Pestana, com trajetória no agronegócio e rotina em home office, e ele, paranaense, se reconheceram no ritmo da roça. A propriedade, às margens do rio Lavatudo, estava marcada pelo fogo quando chegou às mãos do casal. Em três anos, o que era campo aberto virou parreiral, trilhas, lagos, mirante e paredes de taipa reconstruídas, compondo a paisagem serrana.
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A decisão significou deixar a cidade para trás. Entre Curitiba e Cuiabá, o retorno ao campo foi uma volta às origens e um passo adiante em direção ao silêncio, às estrelas e ao som constante das cigarras. Eles falam de paz com a segurança de quem a cultiva no dia a dia, ao lado de pinheiros, gralhas e capivaras que atravessam a cena.
Da compra ao primeiro gole de vinho feito em casa, tudo foi sendo aprendido no trato diário com as plantas. O conceito se consolidou como vinícola boutique, com produção pequena e foco em receber bem, valorizando o terroir frio de altitude da Serra Catarinense, reconhecido por técnicos locais como propício à maturação lenta e aromática das uvas, segundo a Epagri.
De Curitiba e Cuiabá para Urupema, a vida recomeça entre pinheiros e taipa
Um amigo apresentou a área e o encantamento foi imediato. O terreno, a vista para o rio Lavatudo e os campos ondulados falaram mais alto, e a proposta saiu quase no susto, seguida de um plano: transformar sem apressar, cuidar e reconstruir o que o tempo e o fogo tinham levado.
A propriedade fica a 19,6 km de Urupema, por estrada de terra. A transparência com hóspedes virou regra, do acesso às condições do local. Aqui, a noite é de lua e estrelas, o dia tem corredeiras, e as taipas reerguidas dão a moldura artesanal que remete à arquitetura regional, somada à madeira em tábua de pé e telhados pensados para aguentar vento e granizo.
Vinícola boutique, produção limitada e foco no terroir frio da serra
A ideia do vinho ganhou forma após visitas a pequenas vinícolas no Uruguai. A lição foi clara, produções pequenas se sustentam melhor quando parte dos rótulos é consumida no próprio lugar, com hospedagem e experiência integradas. Nasceu a pousada-boutique e um limite de 1,4 hectare de vinhedo, pensado para manter o olhar artesanal sobre cada parreira.
O objetivo é chegar a no máximo 5.000 garrafas por ano, quando todas as variedades estiverem em plena produção. A venda será local, privilegiando a própria pousada e cidades vizinhas como Urupema e São Joaquim. O primeiro passo comercial ocorre com Sauvignon Blanc e Riesling Itálico, enquanto os tintos avançam com Pinot Noir, Malbec e Merlot replantada.
Na lida, tudo é manual, do sistema de espaldeira à irrigação controlada. Antes da colheita, o refratômetro marcou 23 Brix na Sauvignon Blanc, o que indica algo como 13% de álcool potencial, um sinal de maturação promissor. A Riesling Itálico seguiu a mesma toada, sob telas antigranizo e com pássaros rondando os cachos, sinal de uva no ponto.
A Malbec entrou no lugar de parte da Merlot perdida, e a Pinot Noir segue como queridinha do casal, por ser leve e pouco tânica. A Malbec, por sua vez, tornou-se a uva-símbolo da Argentina, segundo o Instituto Nacional de Vitivinicultura (Argentina) e a Wines of Argentina, um renascimento que ajuda a explicar escolhas de castas para o frio serrano.
A Serra Catarinense vem se afirmando nos vinhos de altitude, com noites frias e boa amplitude térmica favorecendo aromas e acidez, de acordo com a Epagri. E quando o assunto é origem do vinho, a curiosidade aparece no papo do campo, respaldada pela ciência, com registros arqueológicos datando produção de vinho na Geórgia por volta de 6.000–5.800 a.C., conforme estudo publicado no PNAS em 2017.
Chalés com vista para o vale, conforto no frio e experiências o ano todo
São quatro chalés, cada um com sua história e vista, todos com calefação digital, enxoval de qualidade e uma garrafa de boas-vindas. O Chalé do Vinhedo acolhe casal e até duas crianças, com sofá-cama e churrasqueira externa exclusiva. O Chalé do Vale, preferido dos casais, abre janelas para a paisagem e o silêncio.
O Chalé do Lago aposta no aconchego, com poltronas voltadas para a água coberta por aguapés na primavera. O Chalé do Bosque mira as árvores e a sombra fresca. A arquitetura resgata a identidade local com tábua em pé e acabamentos pensados para o frio, e as diárias são unificadas ao longo do ano, porque aqui cada estação tem seu espetáculo.
Em volta, trilhas chegam ao rio e um mirante se abre para os parreirais. No verão, o banho no Lavatudo refresca; no inverno, o aconchego de dentro contrasta com a geada lá fora. O espetáculo das cigarras é trilha sonora de rotina, lembrando que a natureza é protagonista.
Da lida diária aos desafios do vinhedo, manejo atento e aprendizado
Nem tudo é brisa fria e sol entre nuvens. O início cobrou o preço da inexperiência, com perdas por míldio e oídio e a decisão difícil de arrancar mudas e recomeçar do zero. A virada veio com orientação técnica do agrônomo e enólogo Betinho, da Zanella Bac, ajustando preparo de solo, adubação orgânica e rotação de defensivos para evitar resistência de fungos.
O cuidado é cotidiano e minucioso, olho em folha por folha, selecionando bagos, protegendo contra granizo e monitorando maturação. A meta é reduzir insumos ao mínimo possível e estudar, no futuro, uvas PIWI mais tolerantes a doenças, sem abrir mão do perfil aromático que o frio de altitude pode entregar.
Turismo rural na serra catarinense, acolhimento e comunidade
Hóspedes chegam do Norte ao Sul, muitas vezes em busca de silêncio, menos trânsito e trocas verdadeiras. A conversa rende amizade, troca de contatos e retornos programados, num fluxo que comprova que a experiência vai além da taça e do pernoite. O atendimento é dos próprios anfitriões, com apoio de equipe local.
Há desafios de mão de obra numa cidade pequena e o cuidado em ser transparente sobre acesso, estrada de terra e ausência de restaurante no local, embora os chalés tenham estrutura para cozinhar. Na paisagem, a vida silvestre circula, de capivaras a quatis, e áreas de preservação permanente ajudam a proteger o entorno do Lavatudo.
As taipas reconstruídas contam a história em pedra, e as árvores renascem onde o fogo um dia passou. O mirante surgiu de um antigo caminho e virou ponto de contemplação. Na taça, os primeiros micro-lotes feitos no porão emocionaram, enquanto a primeira safra comercial amadurece o projeto e o paladar da casa.
No fim, vale a filosofia que guia o lugar, um lembrete de escolha e tempo: ser feliz é fazer o que se ama e conseguir viver disso. Entre parreiras, chalés e o som do rio, o casal descobriu um compasso que não se compra, se cultiva, safra após safra.
O que você acha desta escolha de vida, entre exclusividade e acesso, produção pequena e experiência profunda no lugar de origem do vinho Por aqui, a aposta é que menos pode ser muito mais. Deixe seu comentário, concordando, discordando ou contando sua história de recomeço no campo, no frio serrano ou onde a natureza dita o ritmo.
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