Sudene lança painel com dados da RAIS, IBGE e TSE que evidencia desigualdades de gênero no emprego formal e na política no Nordeste e mapeia onde as mulheres mais avançam e ainda são excluídas
Dados públicos no Data Nordeste mostram diferenças de renda, contratações e representação política entre mulheres e homens, com recortes por estados e municípios
Em março, mês do Dia Internacional da Mulher, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) apresentou o painel “O Nordeste é feminino, mas isso aparece no poder?”, integrado ao Data Nordeste. A publicação reúne e organiza indicadores sobre mercado de trabalho formal e participação política, com recortes territoriais detalhados da Região. Segundo a Autarquia, o objetivo é apoiar políticas públicas com base em evidências.
Os dados mostram que, embora as mulheres sejam maioria em idade produtiva e sustentem economias locais, persistem barreiras estruturais e desigualdades de gênero. As discrepâncias aparecem na remuneração, na composição setorial do emprego e na ocupação de cargos eletivos. A análise combina informações da RAIS 2024, do Censo 2022 do IBGE e do TSE para as eleições municipais de 2024.
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De acordo com a Sudene, a fotografia do mercado formal indica dinâmicas contrastantes quando se observa renda, setores econômicos e novas admissões. Já na política, os dados expõem sub-representação feminina mesmo em localidades onde elas são maioria populacional, o que reforça a distância entre presença social e acesso ao poder.
Para a equipe do Data Nordeste, os resultados apontam caminhos para transformar presença em representação, seja ao ampliar a participação em candidaturas e mandatos, seja ao reduzir gargalos que limitam o acesso a empregos de qualidade.
RAIS 2024, renda e setores expõem assimetrias no mercado formal nordestino
Com base na RAIS 2024, a Sudene destaca que entre os homens a maior concentração de vínculos está entre 1,01 e 2 salários mínimos (52,6%). Entre as mulheres, há participação proporcionalmente maior tanto na faixa de até 1 salário mínimo quanto nas remunerações acima de 2,01 salários mínimos, um retrato que combina maior presença nas bases salariais e nichos de maior qualificação.
No recorte por território, a distribuição do emprego formal é semelhante entre os gêneros, com a Bahia concentrando a maior parcela da força de trabalho regional (25,7% entre os homens e 26,0% entre as mulheres). As diferenças mais marcantes surgem por setor econômico: homens predominam na construção civil (90,4%) e na agropecuária (84,8%), enquanto o setor de serviços tem maioria feminina, responsável por 52,4% dos postos formais.
O painel aponta ainda um mapa competitivo nas novas contratações: 903 municípios do Nordeste tiveram predominância de admissões masculinas, e 891 cidades foram lideradas por mulheres em ocupação de vagas. Apesar da proximidade, o volume total escancara a desigualdade estrutural no período analisado, com 10.735.689 admissões no total, sendo 6.015.323 de homens e 4.720.366 de mulheres — uma diferença superior a 1,2 milhão de postos.
Participação feminina na política, representação segue aquém do peso demográfico
Embora as mulheres representem 51,5% da população brasileira segundo o Censo 2022 do IBGE, elas ocupam menos de 20% das cadeiras nas câmaras municipais do Nordeste, de acordo com a análise da Sudene. Esse descompasso se repete nas disputas ao Executivo e ao Legislativo municipais, onde se registram barreiras de entrada e episódios de violência política de gênero.
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) referentes às eleições municipais de 2024, o percentual de mulheres eleitas nos estados nordestinos permanece abaixo de 35%, evidenciando uma sub-representação persistente. Ao cruzar demografia e ocupação de cadeiras, o painel identifica um fenômeno de exclusão política: em 212 cidades da Região, não há nenhuma vereadora.
O estudo descreve o funil do sistema partidário como um limitador do acesso das mulheres aos espaços de poder, filtrando candidaturas competitivas e o acesso a recursos de campanha. Na distribuição por cargos, a vice-prefeitura reúne as maiores proporções femininas em estados como Ceará (34,2%) e Maranhão (30,8%). Entre prefeitas, os melhores percentuais aparecem no Rio Grande do Norte (25,1%) e na Paraíba (24,3%), enquanto Piauí (12,9%) e Bahia (14,6%) têm as menores taxas.
Nas câmaras municipais, a presença feminina varia entre 15% e 23%, confirmando que, mesmo quando há avanços pontuais, a ocupação de cadeiras não acompanha o peso das mulheres na sociedade e na economia regionais.
Por que a representatividade importa para o desenvolvimento regional, visão da Sudene
Para Ludmilla Calado, geógrafa e coordenadora do Data Nordeste, ampliar a presença feminina nos espaços de decisão é condição para desenvolvimento regional. Segundo ela, “fortalecer a representatividade significa construir políticas públicas mais conectadas com a realidade e as necessidades da Região”, além de refletir a maioria social nas instâncias de poder.
A Sudene enfatiza que é preciso estimular candidaturas, ampliar o acesso a mandatos e cargos de liderança e reconhecer o protagonismo econômico das mulheres. O painel conclui que “fortalecer lideranças femininas, ampliar a participação política das mulheres e reconhecer seu papel na economia são passos para um Nordeste mais inclusivo, democrático e sustentável”.
Metodologia e fontes, combinação de bases oficiais para mapear o cenário
Segundo a Sudene, a análise utiliza a RAIS 2024 para medir vínculos, salários, setores e admissões no emprego formal; o Censo 2022 do IBGE para compor a base demográfica; e os dados do TSE das eleições municipais de 2024 para dimensionar a representação política por gênero. O cruzamento dessas bases permite visualizar diferenças por estado e município, bem como identificar gargalos específicos.
Ao consolidar essas fontes em um painel público no Data Nordeste, a Autarquia reforça a transparência e oferece um instrumento de planejamento para governos, pesquisadores e sociedade civil, favorecendo o desenho de ações focadas em equidade de gênero e geração de trabalho decente.
Como você avalia os dados revelados pela Sudene sobre trabalho e política no Nordeste? Em sua cidade, a presença feminina no emprego formal e nas câmaras municipais reflete a realidade da população? Deixe seu comentário e conte o que mais deveria mudar para reduzir as desigualdades.
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