Selic elevada acelera a saída dos institucionais da Bolsa, trava o fluxo de ações e prolonga a preferência por renda fixa no Brasil
Selic ainda alta afasta investidores institucionais da Bolsa e sustenta um desvio de fluxo para a renda fixa, segundo B3 e Anbima
A manutenção de juros em patamar elevado segue represando o apetite por risco dos grandes investidores locais. Fundos de pensão, seguradoras e gestoras permanecem com alocação contida em ações, favorecendo títulos públicos e crédito privado de boa qualidade. O movimento, destacado pelo Vero Notícias, ajuda a explicar a fragilidade do fluxo doméstico para a B3.
De acordo com o Banco Central, a Selic atingiu 13,75% ao ano em 2022 e permaneceu em dois dígitos ao longo de 2023 e 2024, condição que reforçou a atratividade do carrego na renda fixa. Nesse ambiente, o custo de oportunidade de investir em Bolsa subiu, enquanto a volatilidade de lucros e de preços manteve a aversão.
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Segundo dados públicos da B3, os investidores institucionais locais foram, em diversos meses de 2023 e parte de 2024, vendedores líquidos de ações, enquanto a pessoa física e o investidor estrangeiro alternaram o protagonismo do fluxo. Já a Anbima reportou que fundos de renda fixa lideraram a captação líquida nesses anos, ao passo que fundos de ações tiveram resgates líquidos em vários períodos.
O resultado é uma Bolsa dependente do capital estrangeiro para ganhar tração, enquanto o investidor local institucional segue priorizando papéis indexados à Selic e ao IPCA, debêntures de emissores de alta qualidade e operações estruturadas de menor risco. O quadro pode mudar com sinais mais firmes de queda sustentada dos juros e melhora do ambiente fiscal.
Renda fixa mais gorda segura o apetite por risco
Com a Selic em nível elevado por um período prolongado, o retorno nominal e real de títulos pós-fixados e Tesouro IPCA+ permaneceu competitivo. Para a gestão de grandes passivos, o carrego previsível e a menor volatilidade de curto prazo são vantagens relevantes. Segundo o Banco Central, ao manter juros altos para conter a inflação, a política monetária encarece o capital de risco e favorece aplicações conservadoras.
Além do carrego, a marcação a mercado em títulos longos ainda impõe cautela, o que leva parte dos institucionais a encurtar duration e concentrar em indexadores mais estáveis. Em paralelo, o custo de financiamento elevado pressiona o lucro corporativo, reduzindo a visibilidade sobre crescimento de resultados e os múltiplos da Bolsa.
Outra peça desse quebra-cabeça é o crédito privado de alta qualidade, que ofereceu prêmios atrativos com garantias robustas. Segundo a Anbima, a emissão de debêntures e o avanço de instrumentos isentos, como debêntures incentivadas, forneceram alternativas com risco-retorno competitivo em relação às ações em 2023 e 2024.
O que mostram os dados de fluxo e captação
Relatórios mensais da B3 indicaram que, em boa parte de 2023 e no começo de 2024, os institucionais domésticos ficaram no lado vendedor ou com fluxo tímido para ações, enquanto o estrangeiro teve papel central em janelas de alta. Esse padrão enfraquece movimentos de recuperação mais duradouros do Ibovespa.
Na indústria de fundos, a Anbima registrou que carteiras de renda fixa concentraram a captação líquida no período, com destaque para fundos DI e indexados a índices de inflação, ao passo que os fundos de ações sofreram resgates líquidos em vários meses. Esse retrato, atualizado até meados de 2024, reforça a leitura de que o capital local priorizou instrumentos de menor volatilidade.
Fundos de pensão e seguradoras, o freio estrutural
Para fundos de pensão regulados pela Previc e seguradoras supervisionadas pela Susep, o casamento de ativos e passivos, o chamado ALM, impõe disciplina de risco que costuma privilegiar renda fixa quando o juro real está elevado. Segundo a Abrapp, a alocação média em renda variável dessas entidades ficou abaixo dos níveis pré-pandemia, frequentemente abaixo de 15%, refletindo cautela com volatilidade e liquidez.
O ambiente regulatório também estimula prudência. Regras de solvência e testes de estresse exigem margens de segurança mais confortáveis quando a curva de juros é instável, o que desincentiva aumentos bruscos de exposição a ações. Em termos práticos, a rotação de carteira tende a ocorrer de forma gradual, buscando pontos de entrada com prêmio adequado.
Além disso, o pipeline de ofertas de ações foi mais fraco em janelas de juros altos. Segundo comunicados da CVM e da própria B3, 2023 teve menos IPOs e mais follow-ons pontuais, limitando oportunidades de alocação primária para o dinheiro institucional. Com menos emissões e liquidez, o investidor grande adota postura seletiva.
Há ainda o componente fiscal e político, que afeta o prêmio de risco Brasil e a inclinação da curva de juros. Em momentos de incerteza, os institucionais preferem esperar maior clareza sobre resultado primário, trajetória da dívida e previsibilidade regulatória antes de reabrir o apetite por Bolsa.
Esse conjunto de fatores ajuda a entender por que, mesmo com períodos de valorização do Ibovespa, o fluxo consistente do investidor local não se consolidou. Sem um gatilho claro de queda sustentável dos juros e de melhora do lucro corporativo, a preferência segue com a renda fixa.
O que pode destravar o fluxo para ações
Três gatilhos costumam destravar a volta do institucional à Bolsa. O primeiro é uma queda crível e sustentada da Selic, sinalizada pelo Copom e amparada por inflação sob controle. O segundo é um ciclo de revisões positivas de lucros e melhora de margens setoriais, reduzindo o risco de valuation. O terceiro é maior previsibilidade fiscal, que achata a curva longa e diminui o prêmio exigido para ativos de risco.
Do lado micro, um aumento do pipeline de ofertas e operações de mercado de capitais pode oferecer pontos de entrada com desconto e liquidez, atraindo fundos de pensão e seguradoras. Enquanto isso não acontece, a tendência é de seleção cirúrgica em ações de qualidade, dividendo consistente e balanços robustos, com posições táticas e controle de risco.
Em síntese, os dados de B3 e Anbima, somados aos sinais do Banco Central até 2024, sustentam a leitura de que a Selic elevada mantém os institucionais longe da Bolsa. Uma combinação de juros reais menores, lucros em alta e confiança fiscal é o caminho mais provável para reequilibrar as alocações e reaquecer o mercado acionário.
O tema foi originalmente destacado pelo Vero Notícias, em linha com a percepção de mercado de que o juro alto prolonga a preferência por renda fixa no Brasil.
Debate O juro alto é fator técnico inevitável ou falta apetite de risco dos gestores locais mesmo com assimetria de preços na Bolsa? Deixe sua opinião nos comentários e conte como você enxerga o papel dos institucionais nesse cenário. O fluxo só volta com Selic mais baixa ou já há barganhas suficientes para uma virada de mão?
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