Na Bulgária, pedra com 56 cavidades alinhada a faixa de mármore e eixo leste-oeste descoberta em 2013 acende disputa científica e pode ser o primeiro mapa das estrelas
Na floresta das montanhas Ródope, uma rocha de cerca de 2 por 3 metros com 56 cavidades e uma faixa de mármore branco foi identificada em 20 de maio de 2013 perto da vila de Skobelevo. O alinhamento leste-oeste e o padrão das marcas reacendem o debate sobre um possível mapa das estrelas pré-histórico na Bulgária.
Uma caminhada de reconhecimento arqueológico transformou-se em investigação científica quando o búlgaro Georgi Georgiev e a pesquisadora Ivelina Georgieva se depararam com a rocha parcialmente enterrada em Skobelevo, nas montanhas Ródope. Segundo os pesquisadores, a superfície cortada por uma veia clara de mármore, lembrando a Via Láctea, somava dezenas de depressões cônicas gravadas com precisão.
Ao limpar o musgo, vieram os números que chamam atenção para a arqueoastronomia. As 56 cavidades estavam distribuídas em dois setores, com 24 na porção considerada “norte” e 32 na “sul”, reforçando a hipótese de um “céu” dividido em hemisférios. De acordo com Georgiev e Georgieva, os agrupamentos remetem a constelações reconhecíveis como Ursa Maior, Leão, possivelmente Cassiopeia, Cisne, Lira e o aglomerado das Plêiades.
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Outro detalhe relatado pelos pesquisadores é a variação de tamanho das cavidades, interpretada como indicação da magnitude aparente das estrelas, com buracos maiores para astros mais brilhantes. Próximo ao bloco principal, uma segunda pedra com cavidade cilíndrica apontada para o leste pode ter servido como visor para observar o lever helíaco, o primeiro reaparecimento de uma estrela antes do amanhecer.
Sem materiais orgânicos associados, a datação por carbono-14 não foi possível, mas comparações regionais situam o achado entre 2000 e 500 a.C. A peça, vulnerável a erosão e vandalismo, ainda não tem proteção formal, e os autores solicitaram sua inclusão no registro nacional búlgaro para viabilizar escaneamento 3D e modelagem astronômica.
O achado em Skobelevo, detalhes que sustentam o possível mapa das estrelas
O conjunto morfológico da rocha dá força à interpretação astronômica. O alinhamento leste-oeste, a presença da veia de mármore branco que atravessa a superfície como uma “linha de luz” e a regularidade geométrica das cavidades sugerem intencionalidade, não erosão aleatória. Para Georgiev e Georgieva, o traço branco poderia funcionar como referência visual à Via Láctea.
As 56 cavidades foram descritas como cônicas e de tamanhos calibrados, possivelmente codificando o brilho relativo das estrelas a olho nu. A divisão numérica 24 no norte e 32 no sul reforça um esquema de mapeamento em setores do céu, o que facilitaria a leitura do firmamento em períodos diferentes do ano.
Os possíveis correspondentes celestes incluem Ursa Maior, Leão, Cassiopeia, Cisne, Lira e Plêiades, constelações-chave em observações sazonais no hemisfério norte. Segundo os autores, o padrão não parece casual, mas pensado para reconhecimento rápido por observadores recorrentes do céu.
Como a rocha poderia funcionar como calendário estelar e guia das estações
Georgieva propõe que a pedra fosse um calendário estelar prático, útil para marcar início de plantio e colheita, celebrar solstícios e equinócios e organizar ritos funerários e outras cerimônias comunitárias. Ao observar quais grupos de “estrelas” gravadas surgiam no horizonte em cada época, seria possível antecipar chuvas, frio e calor sem escrita nem instrumentos metálicos.
A pedra vizinha, com uma cavidade apontada ao leste, sugere o uso como um visor para eventos como o lever helíaco. Esse tipo de referência permite ancorar o calendário na primeira aparição anual de estrelas específicas, funcionando como um relógio celeste de alta confiabilidade para povos sem telescópio.
Datação provável entre o Neolítico final e o início da Idade do Ferro nos Bálcãs
Sem vestígios orgânicos ou cerâmicos, os métodos clássicos de datação ficaram limitados, e os pesquisadores recorreram a comparações regionais. Pelo contexto arqueológico das montanhas Ródope, a gravação da pedra de Skobelevo é estimada entre 2000 e 500 a.C.
A região guarda necrópoles trácias e santuários com alinhamentos solares e estelares, integrando a peça a uma tradição balcânica de observatórios rudimentares. Segundo os autores, isso aproxima Skobelevo de práticas vistas em vários pontos do Velho Mundo.
Casos notórios ajudam a entender o fenômeno, como Stonehenge na Inglaterra, alinhado ao nascer do Sol no solstício de verão, e Newgrange na Irlanda, iluminado no solstício de inverno. Esses paralelos, reconhecidos por estudos de arqueoastronomia, mostram que sociedades antigas transformavam o céu em calendário, bússola e templo.
Nesse cenário, Skobelevo se destaca pela combinação de veia de mármore, 56 cavidades calibradas e o possível instrumento de observação ao lado. O conjunto sugere planejamento de longo prazo e transmissão de conhecimento oral e prático ao longo de gerações.
Brilho de mica e segunda pedra, indícios de ritual e observação do céu
A rocha contém mica, mineral que reflete a luz e cria pontos de brilho sob sol forte ou ao crepúsculo. Em combinação com a faixa branca, o efeito visual poderia simular um céu estrelado no chão, reforçando dimensões simbólicas e rituais de leituras astronômicas.
O visor da pedra vizinha, apontado para o leste, poderia ter sido calibrado para nascimentos estelares específicos, ampliando a precisão do “manual do céu”. Essa engenharia simples, mas eficaz, se encaixa no repertório de comunidades pré-históricas sem escrita nem metal de precisão.
Risco de vandalismo e urgência de proteção para a rocha de Skobelevo
Apesar do potencial científico, o local não tem proteção oficial na Bulgária. Em área florestal e sem vigilância, o patrimônio está exposto a erosão, vandalismo e até remoção clandestina.
Georgiev e Georgieva solicitaram a inclusão do sítio no registro nacional de monumentos arqueológicos, buscando garantia legal e condições para estudos aprofundados. Entre as prioridades, estão o escaneamento 3D de alta resolução e a modelagem astronômica.
Sem medidas rápidas, um incêndio ou visita descuidada pode comprometer uma peça que, segundo as estimativas, atravessou até três milênios quase intacta. A conservação é tão urgente quanto a pesquisa.
O que essa descoberta diz sobre o nosso impulso de ler o céu
A possível “primeira carta celeste” não é só curiosidade de museu. Ela evidencia a busca humana por ordem no céu e por ferramentas que conectam ciclos naturais a decisões cotidianas.
Seja como mapa das estrelas, calendário estelar ou santuário, a rocha de Skobelevo amplia a compreensão de como sociedades antigas codificavam o cosmos. E mostra que, muito antes dos telescópios, o firmamento já era manual de sobrevivência.
Opiniões divididas fazem parte da boa ciência, e este caso não foge à regra. Você acha que a peça é um mapa celeste engenhoso ou apenas uma formação intrigante interpretada com otimismo? Deixe seu comentário, concordando ou contestando as hipóteses, e ajude a debater a proteção e o futuro estudo deste possível marco da arqueoastronomia.
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