Queda das hidrelétricas encolhe a energia firme e empurra o Brasil a planejar mais termelétricas a gás, óleo e carvão até 2040, elevando risco de emissões
Brasil projeta mais térmicas com queda da força hídrica e avanço de solar e eólica
Referência em fontes limpas, o Brasil caminha para aumentar a geração por termelétricas nas próximas décadas, enquanto as hidrelétricas perdem espaço na matriz elétrica. O ajuste mira garantir oferta contínua diante da expansão de solar e eólica, que são intermitentes. A tendência foi detalhada em estudo da Aurora Energy Research e no Plano Decenal de Energia da EPE, com impactos diretos em emissões de gases do efeito estufa.
De acordo com a Folha de S.Paulo, em 18.fev.2026, a participação das hidrelétricas cairá gradualmente e as térmicas a gás, óleo e carvão devem avançar. Especialistas avaliam que o movimento é influenciado também pelas mudanças climáticas, que afetam o regime de chuvas e a regularidade dos reservatórios.
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O desenho atual, sem novas grandes barragens no horizonte, transfere ao parque termelétrico o papel de fonte de base e de segurança para cobrir vales de produção renovável. Esse redesenho da matriz pode elevar as emissões, ainda que mantenha a confiabilidade do sistema.
As projeções oficiais e privadas, citadas pela imprensa e por órgãos do governo, indicam que o debate sobre armazenamento por baterias e os próximos leilões de energia serão decisivos. O resultado definirá quanto de geração fóssil precisará ser contratado nos próximos anos.
Participação das hidrelétricas cai, térmicas avançam
Segundo estudo da Aurora Energy Research, a fatia das hidrelétricas na capacidade instalada do Brasil deve cair de 42% em 2026 para 36% em 2030 e 28% em 2040. No sentido oposto, as termelétricas movidas a combustíveis fósseis tendem a subir de 10% hoje para ao menos 16% em 2030 e 18% em 2040.
O relatório atribui a mudança ao crescimento acelerado de solar e eólica e à necessidade de suprir o sistema em momentos sem sol ou vento. Como faltam novos projetos de grandes reservatórios, aumenta a demanda por fontes despacháveis, com destaque para térmicas.
O que diz o Plano Decenal de Energia da EPE
Em linha com esse quadro, o mais recente Plano Decenal de Energia da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), vinculada ao governo federal, projeta alteração no perfil da geração até 2034. A EPE estima que mais de 6% da eletricidade virá de térmicas fósseis em 2034, contra 3% atualmente.
O documento também aponta queda na participação das hidrelétricas na geração, de 56% para 47% no mesmo período. A leitura oficial reforça a necessidade de fontes firmes para sustentar a expansão das renováveis variáveis.
Especialistas consultados destacam que os números podem ser conservadores, sobretudo com a maior variabilidade hidrológica. Segundo a EPE, a calibragem dos próximos leilões e diretrizes de contratação será crucial para o equilíbrio entre custo, segurança e emissões.
Intermitência de solar e eólica e falta de reservatórios
O avanço de painéis solares e turbinas eólicas amplia a oferta de energia limpa, mas traz o desafio da intermitência. Sem sol e sem vento, o sistema precisa de uma retaguarda confiável que entre rapidamente para evitar apagões ou uso emergencial mais caro.
Hidrelétricas com grandes reservatórios historicamente cumpriram esse papel no Brasil, mas esses projetos estão praticamente parados. Novas usinas são, em sua maioria, de fio d’água, com baixa capacidade de regular a vazão ao longo do tempo.
O pesquisador Roberto Brandão, do Grupo de Estudos do Setor Elétrico da UFRJ, resume que o país deixou de construir usinas com reservatório nos últimos anos e que, na prática, o sistema terá de recorrer mais às térmicas. Ele aponta que as usinas a fio d’água oferecem pouca controlabilidade para compensar variações das renováveis.
Entre os motivos para o freio em grandes barragens estão os impactos ambientais e sociais, que afetam comunidades ribeirinhas e a migração de peixes. Esses custos e resistências elevaram a barreira para novos reservatórios.
Com a demanda de energia em crescimento, o espaço vazio deixado pela regularização hídrica tende a ser preenchido por térmicas, até que soluções de armazenamento e gestão da demanda ganhem escala.
Emissões em alta e o paralelo com carros nas ruas
Considerando apenas as usinas, a EPE projeta que a matriz elétrica emitirá cerca de 24 milhões de toneladas de CO2e em 2034, ante 14 milhões de toneladas em 2024. Trata-se de uma elevação relevante para um sistema historicamente limpo.
Segundo o Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente), o acréscimo de cerca de 10 milhões de toneladas equivale a colocar uma frota de 25 milhões de carros novos nas ruas, rodando 10 km por dia durante um ano. O dado dimensiona o impacto climático da estratégia centrada em térmicas.
Baterias ganham espaço no debate, custos geram disputa
Uma alternativa para reduzir a necessidade de térmicas é acelerar a instalação de baterias para armazenamento, capazes de guardar energia quando há excesso de geração e liberar nos horários de pico. Segundo a Folha, o governo ainda resiste a uma adoção mais rápida dessa solução.
No PDE 2035, a EPE estima investimento de R$ 5.000 a R$ 9.500 por kW instalado para baterias com autonomia de quatro horas. Para térmicas, os valores iam de R$ 3.000 a R$ 7.000 por kW, podendo ficar em R$ 5.000 nas configurações mais eficientes.
As cifras, porém, são contestadas pela Absae, entidade da indústria de baterias, que divulga valores inferiores nas mesmas condições técnicas. A diferença metodológica alimenta um embate recorrente no setor sobre a competitividade do armazenamento frente às térmicas.
A decisão governamental sobre como precificar e habilitar baterias em leilões pode redefinir o ritmo de contratação de fontes fósseis. Ajustes regulatórios e ganho de escala tendem a reduzir custos ao longo do tempo.
O que observar nos próximos leilões e políticas
Analistas ouvidos pela imprensa e pelos órgãos técnicos afirmam que os próximos leilões de energia e as diretrizes para entrada de novas fontes serão determinantes. Dependendo do desenho, o volume de térmicas contratadas pode cair ou subir.
Também será central acompanhar como o governo integrará armazenamento, resposta da demanda e redes à expansão de solar e eólica. Medidas nessa direção podem preservar a segurança do sistema sem ampliar tanto a geração fóssil.
Segundo a Folha de S.Paulo e documentos da EPE, o Brasil busca um ponto de equilíbrio entre confiabilidade, custo e emissões. O resultado terá efeitos diretos sobre metas climáticas e a trajetória da matriz até 2040.
O que você acha desse caminho, com mais térmicas para segurar a intermitência ou com aposta acelerada em baterias e gestão da demanda? A expansão de usinas a fio d’água sem reservatório justifica ampliar as fósseis, ou há espaço para outra rota? Deixe seu comentário e participe do debate com argumentos e dados.
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