Desvios em clube de Tocantinópolis, investigação mira R$ 5,1 milhões e Justiça autoriza buscas enquanto Operação 2º Tempo pressiona dirigentes e prefeitura
Operação 2º Tempo avança em Tocantinópolis, com mandados de busca e apuração de repasses públicos ao Tocantinópolis Esporte Clube que somam mais de R$ 5,1 milhões
A Polícia Civil do Tocantins intensificou a Operação 2º Tempo em Tocantinópolis, no extremo norte do estado, cumprindo mandados de busca e apreensão em endereços ligados a um suposto esquema de desvio de recursos públicos destinados ao Tocantinópolis Esporte Clube (TEC). As medidas foram autorizadas pelo Tribunal de Justiça do Tocantins e assinadas pelo desembargador Luiz Zilmar Pires.
Segundo a corporação e a Secretaria da Segurança Pública (SSP-TO), a investigação apura repasses reiterados da Prefeitura de Tocantinópolis ao clube, com possível prática de peculato e lavagem de dinheiro. O valor sob análise ultrapassa R$ 5,1 milhões, com indícios de saques em espécie e movimentações atípicas apontadas por relatórios do Coaf.
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A decisão que liberou as diligências prevê coleta de documentos, equipamentos eletrônicos e outros materiais que ajudem a rastrear o caminho do dinheiro. O alvo inclui a sede do TEC, residências particulares e secretarias municipais.
As ações de campo ocorreram em 12 de março de 2026 e fazem parte de uma etapa para consolidar provas sobre a eventual participação de agentes públicos e dirigentes. A apuração permanece sob responsabilidade da Polícia Civil, que trabalha para detalhar a dinâmica financeira e a responsabilidade de cada investigado.
Decisão judicial estabelece escopo das buscas, restringe acesso imediato a celulares e fixa prazo de 30 dias para novas diligências
De acordo com o TJTO, as ordens judiciais alcançam imóveis ligados aos suspeitos e repartições específicas da gestão municipal. A finalidade é reunir elementos que comprovem a origem e a destinação dos recursos transferidos ao clube ao longo de diferentes períodos administrativos.
A Justiça negou o acesso imediato aos dados de celulares apreendidos, exigindo a identificação individual dos aparelhos antes de reavaliar o eventual levantamento do sigilo telefônico. A autoridade policial tem 30 dias para cumprir e reportar o conjunto das determinações.
Em termos de escopo, as buscas contemplam não apenas o ambiente esportivo, mas também estruturas administrativas da prefeitura. A medida busca mapear, em cadeia, eventuais rotas do dinheiro após os depósitos nas contas do clube.
Como teria funcionado o esquema segundo a investigação, repasses reiterados e circulação de recursos entre dirigentes e terceiros
Relatórios internos e peças da investigação indicam que os repasses ao TEC foram feitos de forma reiterada por diferentes gestões. Após cair na conta do clube, parte do dinheiro teria circulado entre dirigentes e terceiros, o que caracterizaria tentativa de ocultar a origem dos valores.
O Tribunal de Contas do Estado já havia considerado ilegais essas transferências em anos anteriores. Os indícios do Coaf sobre saques em espécie e movimentações incompatíveis reforçam a linha investigativa da Polícia Civil.
Quem são os citados na apuração e o que dizem, prefeito, ex-gestores e presidente do clube apresentam versões
Integram o grupo de investigados o prefeito Fabion Gomes de Sousa (PL), o ex-prefeito e ex-gestor do TEC Paulo Gomes de Sousa (PSD), o ex-gestor do clube Wagner Pereira Novaes e o atual presidente do TEC, Leandro Pereira de Sousa, que é sargento da Polícia Militar. Segundo a Polícia Civil, todos são alvo de diligências para esclarecer a participação nos fatos.
Em vídeo nas redes, Fabion Gomes afirmou que pagamentos ao time foram cancelados por ordem judicial durante sua gestão, e que repasses anteriores seguiram legislação municipal. A PM informou que acompanha o caso e, após notificação formal, adotará as medidas administrativas cabíveis.
Leandro Pereira disse que, desde que assumiu a presidência em janeiro de 2025, o clube não tem convênio nem recebe repasses da prefeitura. Ele destacou que houve uma liminar em dezembro de 2024 suspendendo o repasse previsto em lei municipal de 30 salários mínimos mensais.
O ex-presidente Wagner Pereira Novaes declarou ter atuado com seriedade e que os recursos públicos não seriam suficientes para manter toda a estrutura do time, colocando-se à disposição para esclarecimentos. O ex-gestor Paulo Gomes de Sousa defendeu publicamente a importância do apoio do poder público ao esporte local.
Contexto legal e histórico dos repasses, decisões do TCE e liminar de 2024 moldam a disputa sobre o uso de dinheiro público no futebol
Segundo o TCE-TO, as transferências do município ao clube eram irregulares em exercícios anteriores, o que pressionou a prefeitura e o TEC a reverem a prática. A liminar de dezembro de 2024, citada pela atual gestão do clube, interrompeu o fluxo financeiro pouco antes da mudança de comando no início de 2025.
A partir daí, a diretoria do TEC alega ter atravessado o período sem recursos municipais diretos. A investigação, contudo, concentra-se no histórico de repasses e em possíveis desvios que teriam ocorrido antes da suspensão judicial.
Com a Operação 2º Tempo em curso, a análise pericial de documentos e dispositivos deve indicar se houve, de fato, peculato e lavagem de dinheiro. Os relatórios do Coaf serão cruzados com extratos, contratos e comunicações internas para reconstituir a trilha dos valores.
Próximos passos na apuração, perícia dos materiais e definição de responsabilidades
Todo o material apreendido seguirá para perícia, que pode destravar o mapeamento de contas, datas e responsáveis por ordens de pagamento. A eventual quebra de sigilo de celulares dependerá da identificação prévia dos aparelhos e de nova avaliação judicial.
Concluída a etapa de diligências dentro do prazo judicial de 30 dias, a Polícia Civil pretende delimitar o papel de cada envolvido e apresentar novas representações, se necessário. A expectativa é que, com as provas, o Ministério Público avalie medidas penais e de ressarcimento ao erário.
Debate aberto — O uso de dinheiro público para financiar clubes locais é política de fomento ao esporte ou risco recorrente de mau uso de recursos do contribuinte? Deixe seu comentário e diga o que você pensa sobre repasses ao futebol municipal, equilíbrio fiscal e transparência nas contas públicas.
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