Mutirão solar cresce como saída para baratear a conta de luz, mas a economia da ingenuidade expõe riscos de promessas e financiamentos fáceis
Energia solar avança em bairros e comunidades, mas promessas fáceis exigem atenção a regras, garantias e contratos
O avanço do mutirão solar em bairros, condomínios e cooperativas populares ganhou força no Brasil, impulsionado pela queda de preços de equipamentos e pelo marco da geração distribuída. A ideia de unir vizinhos para comprar e instalar painéis fotovoltaicos coletivamente promete reduzir a conta de luz e gerar trabalho local.
Mas junto com as oportunidades surgem alertas sobre a chamada economia da ingenuidade, quando ofertas com apelo emocional, crédito facilitado e simulações otimistas escondem riscos relevantes. Em editorial recente, a Rede Estação Democracia destacou como o entusiasmo pode ser capturado por promessas que não se sustentam no tempo.
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Com regras específicas da ANEEL e mudanças trazidas pela Lei 14.300, de 2022, o consumidor precisa avaliar prazos, tarifas e garantias técnicas antes de fechar negócio. Segundo o Idec, decisões apressadas e sem orçamento comparativo elevam a chance de endividamento e frustração com o retorno do investimento.
O que é o mutirão solar, onde avança e quem ganha
O mutirão solar é um arranjo de compra e instalação coletiva de sistemas fotovoltaicos, com negociação conjunta de preço, assistência técnica e financiamento. Em comunidades, ele costuma envolver formação de mão de obra local, reduzindo custos e gerando renda.
De acordo com a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (ABSOLAR), a expansão da geração distribuída se espalhou por todas as regiões, abrindo espaço para cooperativas, condomínios solares e telhados compartilhados. Quando bem estruturado, o ganho vem do desconto na conta, do uso eficiente do telhado e do volume negociado com fornecedores.
Cooperativas e compras coletivas
Cooperativas de energia e compras coletivas tendem a oferecer governança e escala para reduzir custos, além de regras de transparência. Segundo a literatura cooperativista e experiências relatadas por entidades do setor, esse formato pode mitigar assimetrias de informação entre consumidores e instaladores.
A formalização é decisiva. Estatuto, prestação de contas, laudo técnico e plano de manutenção dão previsibilidade. Sem isso, o risco de atrasos, equipamentos inadequados e conflitos internos cresce, especialmente quando o grupo depende de crédito.
A economia da ingenuidade, quando o zelo vira armadilha
A ideia de economia da ingenuidade descreve situações em que a boa-fé e a pressa do consumidor são exploradas por vendedores com metas agressivas. No setor solar, isso aparece em promessas de “conta zerada”, payback muito curto e garantias pouco claras de desempenho.
O Idec e Procons estaduais, como o Procon-SP, relatam reclamações envolvendo atrasos, instalações sem ART, inversores subdimensionados e financiamento que supera a economia na fatura. A falta de informação técnica e a ausência de comparativos de propostas amplificam o risco.
Regras da ANEEL e o marco legal, o que mudou
A ANEEL regulamentou a micro e minigeração a partir da Resolução Normativa 482, de 2012, atualizada depois para ampliar o acesso. A Lei 14.300, de 2022, criou o marco da geração distribuída e definiu uma transição com mudanças graduais na compensação de créditos para quem ingressa após sua vigência.
Segundo a ANEEL, a compensação da energia injetada na rede passa por ajustes ao longo dos anos, o que impacta simulações de retorno. Projetos vendidos com base em regras antigas podem frustrar expectativas se não atualizarem as tarifas, encargos e bandeiras tarifárias que afetam a conta de luz.
Financiamento e payback, contas realistas antes de assinar
O financiamento é peça central e precisa caber no bolso. Entidades do sistema financeiro e a Febraban ressaltam que juros, prazo e seguro encarecem a parcela; sem uma simulação conservadora, a economia mensal pode ser menor que a prestação, revertendo o benefício.
O cálculo do payback deve considerar degradação do módulo, troca do inversor em cerca de uma década, limpeza, eventuais sombreamentos e revisões periódicas. Segundo o Inmetro e normas técnicas do setor, a certificação dos equipamentos e a conformidade com a ABNT NBR 16690 aumentam a segurança e a performance ao longo do tempo.
Impacto no emprego e na economia local, potencial e riscos
A cadeia da energia solar mobiliza instaladores, projetistas, eletricistas e fabricantes, gerando empregos de rápida formação. De acordo com a ABSOLAR e com o SENAI, cursos de qualificação e capacitação técnica ajudam a elevar produtividade e reduzir retrabalho.
Por outro lado, a informalidade e a falta de projeto elétrico com ART podem provocar falhas e acidentes, corroendo a confiança no mercado. Supervisão de obra, comissionamento e manual de operação e manutenção são custos necessários, não “extras” dispensáveis.
Como identificar promessas enganosas no solar residencial
Desconfie de promessas de “conta zerada” sem explicar sazonalidade, bandeiras e regras locais de compensação. Segundo a ANEEL, o crédito de energia tem limitações e prazos, e não cobre taxas fixas da fatura.
Exija três ou mais orçamentos, memorial descritivo completo, estudo de sombreamento, curva de geração mês a mês e garantia por escrito de equipamentos e serviço. O Idec recomenda comparar TCO, não só o preço de entrada, incluindo manutenção e substituições.
Checklist rápido antes do contrato
– Projeto assinado por profissional habilitado e emissão de ART junto ao CREA; instalação conforme ABNT NBR 16690 e normas elétricas correlatas.
– Equipamentos certificados pelo Inmetro e compatibilidade entre módulos, inversores e estruturas.
– Simulação com cenário conservador de tarifa e bandeiras; análise de crédito e CET do financiamento informado previamente.
– Cronograma e SLA de obra, com penalidades por atraso; manual de O&M e treinamento básico do usuário.
– Garantias claras de potência e produto, e política de assistência técnica local; documentação para homologação na distribuidora.
Mutirão, cooperativa ou compra individual, o que faz mais sentido
O mutirão pode reduzir preço e ampliar acesso, especialmente onde há organização comunitária e apoio técnico. Cooperativas de energia e condomínios solares também oferecem escala e governança para dividir custos e riscos.
Já compras individuais dão autonomia total, mas pedem mais tempo para comparar propostas e gerenciar a obra. Em qualquer arranjo, transparência, laudo técnico e contrato detalhado são o antídoto mais eficaz contra a economia da ingenuidade, como alertam Idec e Procons.
Este debate ganhou força em análises publicadas pela Rede Estação Democracia, que chamam atenção para o risco de o entusiasmo ofuscar a diligência básica. A boa notícia é que o arcabouço regulatório da ANEEL e a melhora da qualificação técnica oferecem caminhos seguros quando seguidos à risca.
O que você pensa sobre o avanço do mutirão solar, é empoderamento comunitário ou marketing com risco de endividamento disfarçado? Deixe seu comentário com experiências, dúvidas e críticas, e ajude a enriquecer o debate público. Sua vivência pode apontar soluções práticas e expor onde ainda falta transparência no mercado.
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