Sob a escala 6×1 e a pobreza de tempo, brasileiras acumulam mais de 54 horas semanais entre emprego, tarefas domésticas e cuidado da família, com renda menor e maior desemprego
Entre emprego formal, escala 6×1 e trabalho doméstico não remunerado, dados oficiais mostram sobrecarga e exaustão que afetam sobretudo as mulheres negras e periféricas
O relógio corre e a rotina não dá trégua para Priscila Martins Pereira, 32 anos, moradora da Restinga, zona sul de Porto Alegre. Ela trabalha seis dias por semana em uma loja de produtos para cabelos sintéticos usados em tranças e entrelaçamentos, com expediente das 9h às 19h de segunda a sexta e aos sábados até as 17h.
Na prática, a escala 6×1 deixa apenas o domingo para tudo o que ficou por fazer. O dia livre vira dia de faxina, lavar roupas e organizar a casa, e qualquer tentativa de lazer com a filha cobra seu preço na semana seguinte. Quando volta do trabalho, ainda cozinha, ajuda no dever de casa e prepara o dia seguinte.
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O jantar muitas vezes sai por volta das 22h, seguido de banho e mais uma leva de roupas na máquina. Separada há seis anos, Priscila conta com a mãe, irmãs e, às vezes, uma tia para cuidar da filha quando a menina não está na escola. A rede de apoio existe, mas é composta integralmente por mulheres.
O cotidiano de Priscila sintetiza o que milhões de trabalhadoras enfrentam no país. Entre emprego, casa e cuidado da família, o tempo é curto e a sobrecarga recai majoritariamente sobre elas, com impactos na saúde, na renda e nas oportunidades.
Dados do IBGE expõem a pobreza de tempo e a diferença de jornadas entre mulheres e homens
De acordo com o IBGE, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas. Entre os homens, esse tempo é de cerca de 11,7 horas, revelando um abismo na divisão do trabalho não remunerado.
Ao somar trabalho pago e não pago, a carga feminina supera 54 horas semanais, enquanto a masculina fica próxima de 52 horas. A economista Lúcia Garcia, do Dieese, define esse quadro como “pobreza de tempo”, resultado de múltiplos papéis atribuídos às mulheres e de uma estrutura social que naturaliza que elas cuidem da casa e da família.
Garcia pontua que, além do emprego formal, muitas acumulam o cuidado de crianças, idosos e familiares doentes, um trabalho essencial para sustentar a vida cotidiana, mas frequentemente invisível nas contas oficiais. Esse peso atinge mais fortemente quem vive em periferias e tem menor renda.
Desemprego, informalidade e recorte racial ampliam a desigualdade de gênero no mercado de trabalho
A PNAD Contínua 2025 mostra que a taxa de desemprego permanece mais alta entre elas. No período, o índice ficou em torno de 6,2% para mulheres, frente a cerca de 4,2% para homens. Entre mulheres pretas ou pardas, a desocupação alcançou aproximadamente 7,5%, evidenciando desigualdades que se cruzam por gênero e raça.
A informalidade também pesa mais para as trabalhadoras, com presença maior em ocupações sem carteira assinada e menor proteção. Nos rendimentos, a diferença persiste: em média, elas recebem 22% menos do que os homens, mesmo em funções e escolaridade semelhantes, segundo dados do IBGE.
Para Lúcia Garcia, parte expressiva das mulheres fora do mercado aponta os afazeres domésticos e o cuidado com familiares como motivo para não buscar emprego. Esse ciclo reforça a pobreza de tempo e limita a autonomia econômica.
Trabalho comunitário e voluntário evidencia jornada invisível e contínua além do emprego formal
Mesmo sem carteira assinada, há quem trabalhe “mais do que em emprego fixo”. É o caso de Cenira Vargas da Silva, liderança da Cozinha Solidária e Comunitária Arte Mãe, que mantém um pequeno comércio para sobreviver e atua como voluntária. Duas vezes por semana, a cozinha serve cerca de 279 almoços para moradores da região, em uma engrenagem que vai da organização dos alimentos à distribuição.
Ela também ajuda na entrega de cestas do Programa de Aquisição de Alimentos para famílias da comunidade. Na avaliação de Cenira, a realidade de muitas mulheres supera as escalas formais e se parece com uma “jornada 7×7”, em que o trabalho nunca termina.
Debate sindical mira redução da jornada e revisão da escala 6×1 para aliviar o cuidado não remunerado
As condições de trabalho e salário estarão no centro das mobilizações deste ano, com a pauta da redução da jornada sem corte de salário e o fim da escala 6×1 entre os temas do 1º de Maio. Para Suzana Lauermann, secretária da Mulher Trabalhadora da CUT/RS, a mudança é vital porque a carga extra do cuidado recai sobre as mulheres, que seguem trabalhando quando chegam em casa.
Do outro lado, representantes do comércio e de serviços têm se posicionado contra alterações que prevejam o fim da 6×1. Em 9 de março, o Sindilojas Porto Alegre divulgou documento, assinado também por outras entidades do setor, manifestando oposição a propostas nesse sentido.
Por que isso importa para a economia
Especialistas lembram que o trabalho doméstico e de cuidado, majoritariamente realizado por mulheres e muitas vezes sem remuneração, tem forte peso econômico. Se contabilizadas, essas atividades poderiam representar cerca de 13% do PIB brasileiro, segundo o IBGE.
O reconhecimento e a redistribuição do cuidado são peças-chave para reduzir a pobreza de tempo, ampliar a participação feminina no mercado e diminuir desigualdades de renda e emprego. Medidas públicas e acordos coletivos podem acelerar esse ajuste.
Como essa sobrecarga aparece na sua vida, no seu trabalho ou na sua comunidade? Quais políticas ou acordos você considera mais urgentes para dividir melhor o cuidado e reduzir a escala 6×1? Deixe seu comentário e participe do debate.
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