Endividamento recorde pressiona famílias e produtores, encarece o crédito e ameaça a economia brasileira com juros ainda altos e renda enfraquecida
Dados de CNC, Banco Central e Serasa indicam patamar histórico de dívidas, com reflexos no consumo, no crédito e no agronegócio
O endividamento recorde de famílias e produtores rurais voltou ao centro do debate econômico. Levantamentos recentes apontam um quadro de dívidas elevado e persistente, com impacto direto na capacidade de consumo, no custo do crédito e no ritmo de crescimento do PIB.
Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), a proporção de famílias com dívidas se manteve em patamar historicamente alto em 2022 e 2023, e continuou elevada em 2024. O Banco Central também registra comprometimento de renda das famílias acima da média da última década, mesmo após o início do ciclo de cortes na Selic em 2023.
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Os sinais de estresse aparecem ainda na inadimplência. Dados da Serasa Experian mostram mais de 70 milhões de CPFs negativados em 2024, uma marca que pressiona o varejo, os serviços e o mercado de crédito, travando a recuperação do consumo.
Esse quadro preocupa porque se combina com fatores como juros altos, renda real enfraquecida e, no campo, quebras de safra e custos elevados. O resultado é um risco maior de freio na atividade, exigindo medidas coordenadas de política econômica e gestão de dívidas.
O que os novos dados revelam sobre famílias endividadas
De acordo com a CNC, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor mostrou que a fatia de famílias endividadas bateu marcas históricas entre 2022 e 2023 e se manteve próxima desses picos ao longo de 2024. O nível elevado reflete a popularização do crédito, mas também o encarecimento do rotativo de cartão e do parcelado sem juros.
O Banco Central destaca que o comprometimento da renda com serviços da dívida, incluindo financiamento imobiliário e cartão, ficou acima do observado no período pré‑pandemia. Esse indicador ajuda a explicar por que, mesmo com leve melhora do emprego, o orçamento doméstico segue pressionado.
Na inadimplência, a Serasa Experian relata que o total de pessoas físicas com contas em atraso permaneceu muito alto em 2024. O índice indica dificuldade para regularizar dívidas, o que reduz a capacidade de consumo e restringe o acesso a novas linhas de crédito.
Juros elevados e renda enfraquecida, a combinação que aperta o orçamento
A taxa Selic chegou a 13,75% ao ano em agosto de 2022 e começou a cair a partir de agosto de 2023, conforme o Banco Central. Mesmo com cortes, os juros reais continuaram elevados em 2024, mantendo o serviço da dívida caro para famílias e empresas.
No cartão, o cenário foi mais duro. O rotativo acumulou taxas acima de 400% ao ano nos últimos anos, segundo o Banco Central, o que levou à mudança de regra que passou a vigorar em janeiro de 2024, limitando a cobrança a até 100% do valor principal. A medida reduz a escalada da dívida, mas seus efeitos são graduais.
Pelo lado da renda, pesquisas do IBGE mostraram recuperação do emprego, porém com salários reais apenas lentamente em alta. A combinação de renda fraca e crédito caro limita a capacidade de redução do endividamento no curto prazo.
Consumo e crédito em marcha lenta, efeitos no PIB e no emprego
Quando o orçamento fica mais comprometido com dívidas, o consumo perde fôlego. Indicadores do varejo do IBGE apontaram oscilação ao longo de 2023 e 2024, com setores sensíveis ao crédito, como bens duráveis, sentindo mais a pressão de juros.
Relatórios do Banco Central mostram que a concessão de crédito às famílias desacelerou em termos reais, com destaque para retração em modalidades caras e maior busca por prazos longos. O encarecimento do capital também atinge pequenas empresas, elevando custos e adiando investimentos.
Esse ambiente aumenta o risco de um crescimento mais fraco do PIB e de algum desaquecimento no mercado de trabalho. Sem alívio mais consistente no custo financeiro e melhora efetiva de renda, a economia tende a operar abaixo do potencial.
No campo, produtores pressionados por custos e clima buscam prazos
O agronegócio também sente o peso do endividamento. Entidades do setor, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, têm alertado que quedas de preços em algumas culturas, somadas a custos elevados e eventos climáticos, deterioraram o caixa de produtores em diferentes regiões.
O Ministério da Agricultura informou, em comunicados de 2023 e 2024, que resoluções do Conselho Monetário Nacional autorizaram prorrogações de dívidas de crédito rural em municípios com emergência reconhecida. A medida dá fôlego, mas não substitui a necessidade de reequilíbrio estrutural de renda e custos.
Em paralelo, bancos públicos e privados reforçaram linhas como Pronaf e Pronamp nos planos safras recentes, com foco em investimentos e custeio. Ainda assim, produtores relatam que a taxa efetiva do crédito e a queda de receita apertam margens, levando muitos a renegociar prazos e garantias.
Soluções na mesa, do corte de juros à renegociação de dívidas
Do lado macro, a continuidade de um ciclo responsável de queda de juros, ancorado por credibilidade fiscal, tende a reduzir o custo do crédito e o comprometimento da renda, conforme ressaltam comunicações do Banco Central e do Ministério da Fazenda. Isso ajuda consumo, investimento e emprego.
No varejo financeiro, o avanço de Open Finance, portabilidade de crédito e limites ao rotativo, sob regulação do Banco Central, melhora a concorrência e favorece taxas menores. Programas de renegociação, como o Desenrola Brasil lançado em julho de 2023 pelo governo federal, ampliaram o acesso a descontos e alongamento de prazos.
Para as famílias, organizar dívidas por custo e prioridade, trocar modalidades caras por crédito mais barato e evitar o rotativo são passos práticos defendidos por educadores financeiros. No campo, prorrogações em situações de calamidade e planejamento de safra com travas de preços e seguro rural ajudam a mitigar riscos.
Como buscar taxas menores e organizar a dívida
Segundo o Banco Central, a portabilidade permite migrar empréstimos para instituições com melhores condições, sem novos impostos sobre o principal. Comparar Custo Efetivo Total e prazos é essencial para reduzir o peso mensal e evitar recorrer ao rotativo.
O uso do Open Finance, com consentimento do cliente, pode ampliar a oferta de crédito e personalizar propostas, aumentando a chance de desconto. Negociar diretamente com o credor e, quando disponível, aderir a mutirões de renegociação com descontos relevantes acelera a saída da inadimplência.
E você, considera que o endividamento alto é responsabilidade sobretudo de juros e renda ou de escolhas individuais de consumo e gestão financeira? Deixe sua opinião nos comentários e conte como as condições de crédito e os preços têm impactado seu orçamento ou o caixa do seu negócio.
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