Emprego entre maiores de 65 anos triplica na Espanha, recorde histórico expõe efeito da reforma da aposentadoria e empurra saída do mercado de trabalho

Trabalhador sênior na Espanha, acima de 65 anos, usando computador em ambiente de escritório durante o expediente
Mais espanhóis acima de 65 anos seguem trabalhando por causa do adiamento da aposentadoria.
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Emprego de 65 anos ou mais dispara na Espanha, dados do INE mostram recorde impulsionado pelo adiamento da aposentadoria

O mercado de trabalho na Espanha registrou um avanço inédito entre os trabalhadores mais velhos. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), a taxa de emprego entre pessoas com mais de 65 anos triplicou em relação a uma década atrás, alcançando patamares históricos. O avanço não é isolado e dialoga com outros marcos recentes, como contribuições recordes para a segurança social e a menor taxa de desemprego em décadas.

O fenômeno, porém, tem um motor claro. A elevação gradual da idade legal de aposentadoria, fruto da reforma previdenciária aprovada em 2011, vem adiando a saída do mercado de trabalho e mantendo mais pessoas ativas após os 65 anos. Em 2026, por exemplo, quem tem menos de 38 anos e 3 meses de contribuição só poderá se aposentar aos 66 anos e 10 meses.

Os dados anualizados mais recentes da Pesquisa de População Ativa (EPA) do INE mostram que o avanço não decorre simplesmente de maior preferência pelo trabalho, mas de mudanças estruturais. A tendência se consolidou nos últimos anos e tem implicações diretas para a sustentabilidade do sistema previdenciário.

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Esse novo retrato ajuda a explicar por que a presença dos mais velhos no emprego cresceu mais rápido que a média. Ele também revela os desafios do fim da carreira, com desemprego de longa duração e recolocações difíceis para quem perde o posto antes de completar a idade exigida para a aposentadoria.

Recordes e virada demográfica, o que mostram os números mais recentes do INE e da EPA

No quarto trimestre de 2025, a EPA do INE contabilizou 4.926.300 pessoas empregadas com mais de 55 anos na Espanha. Esse contingente cresceu 23,3% desde a reforma trabalhista de 2022, ritmo bem acima do aumento médio de 11,3% observado nas demais faixas etárias.

Entre 65 e 69 anos, a taxa de emprego chegou a 14,25% para homens e 12,29% para mulheres, contra cerca de 5% em 2015. Já entre homens de 60 a 64 anos, a taxa de emprego atingiu 58% em 2025, a mais alta desde o início dos anos 1980. Em termos gerais, o patamar em torno de 14,2% entre os 65+ traduz o novo teto histórico dessa faixa.

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Aposentadoria mais tarde, como as reformas empurraram trabalhadores além dos 65 anos

A reforma de 2011 redesenhou incentivos e prazos, com aumento progressivo da idade legal e regras mais rígidas para a aposentadoria antecipada. Em 2026, quem não atingir o tempo mínimo de contribuição exigido terá de esperar até 66 anos e 10 meses; em 2027, o limite de referência do sistema chegará a 67 anos.

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Segundo o Observatório Trimestral do Mercado de Trabalho, elaborado pela Fedea e pelo BBVA Research, o aumento do emprego entre idosos é explicado sobretudo pelo envelhecimento populacional e pelo adiamento efetivo da aposentadoria. O estudo observa que muitos permanecem ativos por necessidade financeira, não por opção.

Além da idade mínima, os coeficientes de redução aplicados às aposentadorias antecipadas ficaram mais duros. O resultado prático é que menos pessoas conseguem se aposentar aos 65 anos, sendo forçadas a estender a vida laboral.

Essa combinação de fatores consolidou uma tendência que há dez anos parecia pontual. Agora, é parte do novo desenho do mercado de trabalho espanhol, com impactos diretos sobre a reposição de mão de obra e a produtividade.

Desafios no fim da carreira, desemprego prolongado e recolocações difíceis

Embora as taxas recentes sejam recordes para padrões históricos, a realidade para quem tem mais de 55 anos segue difícil. Um estudo da Fundação BBVA e do Ivie mostrou que a taxa de desemprego dessa faixa etária é de 9,8%, superando a do grupo entre 25 e 54 anos.

O tempo sem trabalho também preocupa. Seis em cada dez desempregados acima de 55 anos permanecem nessa condição por longos períodos, proporção que é três vezes maior do que a observada entre jovens de 16 a 24 anos, segundo o mesmo estudo.

Muitos trabalhadores perdem o emprego uma década antes de atingir a idade necessária para se aposentar. Nesse intervalo, sobrevivem com vínculos temporários, bicos e interrupções recorrentes, acumulando lacunas de contribuição e pressão financeira.

No outro extremo, a taxa de emprego em torno de 14,2% acima de 65 anos reflete quem conseguiu manter-se ativo ou superar o revés do desemprego. Ainda assim, o funil de acesso a vagas está mais estreito, sobretudo em setores que exigem alta intensidade física ou rápida atualização tecnológica.

Esse quadro reforça a urgência de políticas de requalificação, combate ao etarismo e adaptação de postos para longevidade produtiva. Sem isso, a permanência no mercado tende a ser desigual e mais penosa para quem enfrenta episódios de desemprego prolongado.

O pano de fundo previdenciário, sustentabilidade das pensões e incentivos ao adiamento

Economistas vêm alertando que a sustentabilidade das pensões públicas exige carreiras mais longas e maior tempo de contribuição. As reformas recentes caminham nessa direção, desestimulando a aposentadoria antecipada e elevando progressivamente a idade legal.

Os efeitos já aparecem nos indicadores do INE e em estudos como os da Fedea, do BBVA Research e da Fundação BBVA-Ivie. Na prática, cada vez mais pessoas não conseguem se aposentar aos 65 anos e estendem a vida ativa até perto dos 67 anos, consolidando uma nova normalidade no mercado de trabalho espanhol.

O que observar nos próximos anos

Três frentes devem concentrar atenção: a evolução demográfica, a produtividade dos trabalhadores mais velhos e a eficácia de políticas para requalificação e retenção. A conjugação desses fatores dirá se o recorde atual é sustentável sem agravar desigualdades no fim da vida laboral.

Empresas e governo precisarão ajustar práticas de gestão, ergonomia e formação continuada para mitigar o desemprego de longa duração acima de 55 anos. Sem isso, o adiamento da aposentadoria tende a ampliar a distância entre quem consegue permanecer empregado e quem é empurrado para a inatividade involuntária.

O que você pensa sobre o adiamento da aposentadoria e o impacto no emprego sênior na Espanha? Deixe seu comentário e conte se políticas de requalificação deveriam ser prioridade, ou se mudanças nas regras de aposentadoria fariam mais diferença.

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Sobre o Autor

Ana Paula Araújo
Ana Paula Araújo

Ana Paula Araújo escreve diariamente sobre o mercado de trabalho, mantendo os leitores informados sobre vagas de emprego e concursos públicos, especialmente nas modalidades Home Office e Híbridas.

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