Empregabilidade tratada como política de Estado em países que integram educação e trabalho, enquanto o Brasil ainda opera em silos e perde coordenação
Empregabilidade ganha prioridade em economias que alinham escola, empresas e governo, mas o Brasil segue com ações dispersas e baixa coordenação
Transformar empregabilidade em política de Estado virou tendência em países que conectam educação, empresas e governo com metas e financiamento estáveis. No Brasil, programas avançam, mas a execução costuma ocorrer em silos institucionais, o que reduz escala e impacto.
O debate voltou à tona em 2024 em meio à melhora do emprego formal e à pressão por produtividade. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, a taxa de desocupação ficou em torno de 7% no fim de 2024, o menor patamar em quase uma década, mas ainda com desigualdades por faixa etária e escolaridade.
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Jovens de 18 a 24 anos seguem com desocupação bem mais alta, próxima de 17% no terceiro trimestre de 2024, de acordo com o IBGE. A lacuna de habilidades continua sendo um gargalo para contratações em setores como tecnologia, saúde, construção e indústria.
Relatórios internacionais reforçam o diagnóstico. O Fórum Econômico Mundial, na edição de 2023 do The Future of Jobs, estimou que 44% das habilidades dos trabalhadores devem mudar até 2027. A OCDE e a OIT apontam que políticas ativas de emprego, combinadas a formação técnica de qualidade, são decisivas para inclusão e produtividade.
O que significa tratar empregabilidade como política de Estado
Na prática, isso envolve governança interministerial, metas compartilhadas, dados integrados e financiamento plurianual. Também exige pactos com o setor produtivo para orientar trilhas de qualificação às demandas reais das cadeias produtivas.
Os países que avançam adotam regras simples e estáveis para aprendizagem, estágios e microcredenciais, com validação de competências. Há transparência sobre resultados de empregabilidade, custos por vaga e retorno social do investimento.
Segundo a OCDE (2023–2024), integrar educação e trabalho em estratégias nacionais de habilidades ajuda a reduzir volatilidade e a elevar a produtividade. Além disso, dá previsibilidade para empresas e trabalhadores planejarem requalificação contínua.
Casos internacionais com coordenação e metas claras
A Alemanha consolidou o sistema dual, no qual estudantes dividem tempo entre escola técnica e empresa, com certificações reconhecidas nacionalmente. De acordo com relatórios da OCDE, cerca de metade dos jovens ingressa em trilhas duales, mantendo baixa desocupação juvenil.
Em Portugal, o programa Qualifica, coordenado pela ANQEP, promove reconhecimento de saberes e formação modular para adultos, articulado a metas anuais de conclusão. Já Cingapura opera o SkillsFuture, com créditos individuais para atualização profissional ao longo da vida, conforme o governo local destaca em seus balanços anuais.
Na Espanha, o SEPE vincula qualificação a políticas ativas e incentivos à contratação, enquanto o Reino Unido financia a formação via Apprenticeship Levy desde 2017. A OIT recomenda modelos com forte participação empresarial e foco em resultados mensuráveis.
O Brasil que opera em silos e a consequência para jovens e empresas
O Brasil tem iniciativas relevantes, mas fragmentadas entre MEC, MTE, MDIC, estados, municípios e Sistema S. Sem coordenação robusta, há sobreposições de cursos, currículos desalinhados à demanda local e dificuldade para escalar o que funciona.
Segundo o MTE, havia cerca de 500 mil contratos de aprendizagem ativos recentemente, número importante mas pequeno frente ao contingente de jovens fora do emprego de qualidade. O descompasso deixa vagas abertas, especialmente em áreas industriais e de tecnologia.
Embora o emprego formal tenha melhorado segundo o Caged em 2024, a produtividade do trabalho segue baixa. Estudos do FGV Ibre apontam estagnação na última década, o que limita ganhos salariais sustentáveis e a competitividade das empresas.
Há também desafios de acesso. Regiões com menor densidade industrial e educacional sofrem mais para atrair cursos técnicos atualizados e parcerias com empresas. Sem redes regionais fortes, a escala nacional não se materializa e a política pública perde alcance.
Outro ponto é a falta de dados integrados entre PNAD, Caged, eSocial e cadastros educacionais, o que dificulta medir impacto por curso, por município e por público-alvo. Sem métricas unificadas, fica difícil ajustar rotas e premiar quem entrega melhores resultados.
O que já funciona no país e pode ser ampliado
As redes do Sistema S e as escolas técnicas estaduais acumulam experiência prática com empresas e alto índice de inserção. Segundo o SENAI, pesquisas com egressos indicam empregabilidade próxima de 70% em diversos cursos, com destaque para manufatura, logística e tecnologia.
Programas estaduais como o Trilhas de Futuro (MG) e o Novotec (SP) aproximam jovens de cursos demandados localmente. No plano federal, instrumentos como o Catálogo Nacional de Cursos Técnicos e o Cadastro Nacional de Aprendizagem ajudam a dar padrão e transparência, conforme informações de MEC e MTE.
Passos práticos para superar os silos e acelerar resultados
Primeiro, criar uma governança nacional de habilidades com assento de MEC, MTE, MDIC, estados, municípios e setor produtivo, com metas anuais de empregabilidade pós-curso. Essa instância deve pactuar prioridades regionais e acompanhar indicadores públicos.
Segundo, integrar dados de emprego e educação para medir efetividade por curso, público e região, com painéis abertos e auditoria independente. A OCDE recomenda gestão por evidências e ajustes rápidos quando metas não são atingidas.
Terceiro, financiar por resultados e por escassez setorial, premiando provedores que colocam mais alunos em vagas formais e de melhor salário. A OIT destaca que incentivos bem desenhados elevam a qualidade e reduzem evasão.
Quarto, ampliar aprendizagem, estágios e microcredenciais com certificação nacional e reconhecimento de competências, inclusive para trabalhadores informais. Em 2024, com desemprego geral em cerca de 7% e desemprego juvenil elevado, acelerar conexões entre escola e empresa é crucial para distribuir a recuperação do mercado de trabalho, segundo o IBGE.
Participe do debate. Na sua visão, o que mais impede o Brasil de integrar educação e trabalho em uma política de Estado contínua e baseada em evidências? Quais ações concretas deveriam ser priorizadas no curto prazo para reduzir o descompasso de habilidades e melhorar a empregabilidade?
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