Desemprego avança para 5,8% no trimestre até fevereiro, renda bate recorde e mercado segue aquecido apesar do efeito sazonal sobre vagas em saúde, educação e construção
Desemprego sobe no início de 2026, mas renda média atinge recorde e informalidade recua, com impacto concentrado em setores sazonais do serviço público e na construção
Divulgados em 27 de março de 2026, os dados da Pnad Contínua mostram a taxa de desemprego em 5,8% no trimestre encerrado em fevereiro, após 5,2% no período até novembro. O resultado ficou ligeiramente acima da mediana do mercado, de 5,7%, medida pela Bloomberg, mas segue em patamar historicamente baixo para o período.
O contingente de pessoas em busca de trabalho alcançou 6,2 milhões, um avanço de 600 mil em relação ao trimestre encerrado em janeiro. O movimento reflete a sazonalidade típica do início do ano, com cortes temporários principalmente em educação, saúde e construção.
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Apesar do aumento da desocupação e da subutilização, que subiu de 13,5% para 14,1% (o equivalente a 16 milhões de pessoas), o rendimento real manteve trajetória positiva. A renda média chegou a R$ 3.679, alta de 2% no trimestre e 5,2% em 12 meses, o maior valor da série histórica em termos reais.
A população ocupada ficou em 102,1 milhões, uma queda de 0,8% no trimestre (menos 874 mil pessoas), embora ainda 1,5% acima do mesmo período do ano anterior. As perdas se concentraram em construção e no grande grupo da administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde e serviços sociais.
Taxa de desemprego avança para 5,8% no trimestre até fevereiro, com efeito sazonal e patamar ainda baixo na série histórica
O indicador de 5,8% é o menor para um trimestre encerrado em fevereiro desde 2012, início da série. Em todo o histórico, a menor taxa havia sido 5,1% nos três meses terminados em dezembro de 2025, embora o instituto evite comparações diretas entre trimestres que compartilham meses.
O avanço recente foi “influenciado por perda de vagas em saúde, educação e construção”, um padrão comum no começo do ano. Ainda assim, a leitura é de um mercado que preserva ganhos quantitativos em relação a 2025, com sinais de acomodação após uma forte recuperação pós-pandemia.
O ponto de maior estresse da série seguiu em março de 2021, quando o contingente de desocupados chegou a quase 15 milhões. O quadro atual está distante daquele pico, reforçando a noção de desemprego baixo em perspectiva histórica.
Rendimento médio bate R$ 3.679, massa de rendimentos fica elevada e formalização ganha espaço em comércio e serviços
O rendimento real habitual de todos os trabalhos atingiu R$ 3.679 por mês, o maior nível já registrado. Em três meses, a alta foi de 2%, e na comparação anual, de 5,2%, impulsionada por maior demanda por trabalhadores e por tendência de formalização em comércio e serviços.
A massa de rendimento mensal real somou R$ 371,1 bilhões, estável frente ao trimestre anterior, porque a renda subiu, mas o número de ocupados caiu. Em relação a um ano antes, houve crescimento robusto de 6,9%, sustentando o consumo das famílias.
A combinação de renda recorde com desemprego baixo ajuda a explicar a resiliência do mercado de trabalho, mesmo com sinais de desaceleração marginal na criação de vagas. A melhora na qualidade dos postos, com mais formalização, reforça esse quadro.
Ocupação recua para 102,1 milhões, cortes se concentram em construção e em funções públicas com contratos temporários
O total de ocupados ficou em 102,1 milhões, com redução de 0,8% no trimestre, o que representa 874 mil pessoas a menos. Na comparação anual, ainda há crescimento de 1,5%, mostrando que o ajuste recente não reverteu os ganhos de 2025.
Os cortes mais intensos ocorreram na construção (menos 245 mil trabalhadores) e no grupo da administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde e serviços sociais (menos 696 mil no trimestre). Um ano antes, esse mesmo grupo tinha aproximadamente 800 mil pessoas a menos do que hoje, o que mostra recuperação no horizonte de 12 meses.
No setor público, o total de empregados, incluindo servidores estatutários e militares, caiu 3,7%, para 12,6 milhões. A dinâmica está ligada ao fim de contratos temporários na virada do ano, especialmente em educação e saúde, além de menor demanda por obras e reparos pelas famílias.
Esse padrão reflete o efeito calendário sobre a ocupação, muito presente no primeiro trimestre, e tende a se dissipar à medida que os ciclos de contratação se normalizam ao longo do ano.
Informalidade cai para 37,5%, carteira no setor privado fica estável e conta própria sem CNPJ desacelera
A taxa de informalidade recuou para 37,5% da população ocupada, o que equivale a 38,3 milhões de trabalhadores, ante 37,7% no trimestre até novembro, quando eram 38,8 milhões. No mesmo período de 2025, estava em 38,1%.
Entre os grupos, houve redução dos empregados sem carteira assinada no setor privado, agora 13,3 milhões (menos 342 mil no trimestre). A ocupação com carteira permaneceu estável em 39,2 milhões, assim como conta própria (26,1 milhões), domésticos (5,5 milhões) e empregadores (4,2 milhões), em um quadro que sugere menor tração em segmentos tradicionalmente menos formalizados da indústria, agricultura e construção.
O que esperar para 2026, projeções indicam estabilidade com leve alta da desocupação e renda ainda sustentando o consumo
As projeções do mercado apontam um ano de estabilidade em patamar baixo para a desocupação, com leve viés de alta. A economista Claudia Moreno (C6 Bank) vê taxa um pouco acima de 5% no fim de 2026, enquanto Rafael Perez (Suno Research) projeta algo próximo de 6%.
Para Antonio Ricciardi (Daycoval), a taxa tende a 5,6% no fim do ano, com desaceleração gradual mas ainda em nível aquecido. A consultoria Macro 4intelligence estima 6,1% no trimestre encerrado em março e, com ajuste sazonal, 5,4% nos trimestres de fevereiro e março.
Fatores como reajuste do salário mínimo acima da inflação, aumentos para servidores, atividade ainda positiva e eventuais medidas fiscais em ano eleitoral devem manter a massa de rendimentos elevada. Para André Valério (Inter), o mercado se aproxima de um ponto de virada, indicando arrefecimento na margem e desocupação em 5,5% no fim de 2026.
Entenda o que é desemprego e por que a subutilização importa
No conceito da Pnad Contínua, são considerados desempregados os indivíduos de 14 anos ou mais que não estavam trabalhando, estavam disponíveis e tomaram alguma iniciativa para encontrar trabalho no período de referência. Não basta não ter ocupação, é preciso demonstrar busca efetiva por vaga.
A subutilização amplia esse olhar ao incluir quem trabalha menos horas do que gostaria ou quem não procura emprego, mas tem disponibilidade para trabalhar. Por isso, a taxa de subutilização ajuda a captar ociosidade escondida que a desocupação isoladamente não mostra.
O que você achou dos números do mercado de trabalho neste início de 2026? A combinação de desemprego em 5,8% com renda recorde muda sua percepção sobre emprego e consumo? Deixe seu comentário e conte como esses movimentos têm impactado sua região e seu setor.
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