Ao escolher viver sozinho no meio do mato, morador de Campestre da Serra expõe rotina no Rancho Alegre e reacende debate sobre vida simples na Serra Gaúcha
Um vídeo gravado no interior gaúcho mostra a rotina de Lili, que vive em um rancho cercado de árvores e histórias. Entre trabalho no campo, visitas de amigos e lembranças difíceis, ele resume a escolha em uma frase fazer o que o coração pede.
A cena é típica do interior, mas ganhou outra dimensão ao parar nas redes. Em um vídeo publicado pelo canal JJ88, a apresentadora Joice Moraes visita um homem conhecido como Lili, que vive sozinho em uma área rural de Campestre da Serra, na Serra Gaúcha. O encontro, gravado no sítio que ele chama de Rancho Alegre, revela uma rotina marcada por trabalho, simplicidade e um forte sentimento de pertencimento ao lugar.
Lili se apresenta como Luiz Augusto Fabro, mas diz que quase ninguém o chama pelo nome de registro. No relato, ele afirma que mora ali desde jovem, quando decidiu deixar a cidade e “ir para o mato”. Ele também conta que a propriedade tem cerca de 55 hectares, e descreve como foi abrindo roça e derrubando mato na base do esforço.
Ao longo da conversa, o morador alterna lembranças leves e confissões duras. Fala de fases em que saía para festas quando era mais novo, do gosto por pescar e da alegria de receber visitas. Também menciona períodos de tristeza após perdas na família, dizendo que a rotina e o tempo foram ajudando a seguir em frente.
Quem é Lili e por que sua história chamou atenção nas redes
No vídeo, Lili aparece como um personagem real do cotidiano rural, com um jeito direto e bem humorado de contar a própria trajetória. Ele afirma que começou a trabalhar na lida do campo aos 15 anos, depois de estudar em Vacaria e abandonar a ideia de seguir na cidade. A decisão, segundo ele, foi uma escolha de vida, ficar onde se sentia inteiro.
A casa simples, com itens básicos, ferramentas de trabalho e um espaço organizado, vira parte do interesse do público. A gravação mostra detalhes como área de serviço, utensílios, freezer e um ambiente cercado por árvores e frutíferas, algo que ele valoriza como proteção e conforto no dia a dia.
O que mais prende a atenção, porém, é o contraste entre isolamento e convivência. Embora viva sozinho, Lili descreve um rancho que recebe amigos, vizinhos e conhecidos nos fins de semana, reforçando uma ideia comum no interior, a solidão física nem sempre significa vida sem laços.
O que Campestre da Serra revela sobre a Serra Gaúcha entre campos e mata nativa
Campestre da Serra é um município localizado na Serra Gaúcha, entre São Marcos e Vacaria, e nasceu historicamente como distrito ligado a Vacaria, com sede em São Manuel.
A própria formação da cidade está associada a deslocamentos internos e ao papel de estradas na ocupação do território, com a BR-116 aparecendo como eixo de crescimento ao longo do tempo.
O município também é lembrado por paisagens naturais e por pontos conhecidos, como a Ponte do Korff, citada em registros históricos e turísticos como um marco antigo sobre o Rio das Antas.
Esse pano de fundo ajuda a entender por que histórias como a de Lili fazem sentido ali. A região combina áreas de campo e mata, com cultura rural forte e uma vida comunitária que se expressa em capelas, encontros e visitas, algo que o turismo oficial do estado descreve como parte da identidade local. Turismo RS
Mesmo quando o assunto é um “homem no meio do mato”, o cenário é de um território habitado há muito tempo, com memória, circulação e trabalho. A curiosidade do público, então, não vem só do isolamento, mas do modo como essa vida se encaixa em uma região que mistura silêncio, natureza e vizinhança.
Rotina de trabalho e autossuficiência em um rancho cercado de frutíferas
Lili descreve uma rotina em que quase tudo depende dele, de manter o espaço, lidar com ferramentas, cuidar do que precisa e improvisar quando falta ajuda. Ele comenta que já trabalhou com motosserra e roçadeira, e mostra adaptações para dias de chuva, como coberturas e áreas de apoio.
Ao falar de alimentação, ele reforça a lógica do interior, estocar, congelar, aproveitar o que tem e contar com a rede próxima quando necessário. No relato, ele menciona a presença de um cunhado que às vezes leva comida, e diz que aprendeu a cozinhar com a mãe, que teria trabalhado muitos anos na comunidade.
Pescaria no Rio das Antas e o conhecimento tradicional que pouca gente vê de perto
Outro ponto forte do vídeo é a memória de pescarias, contada com entusiasmo e detalhes do vocabulário local. Lili fala de peixes comuns em rios do Sul e menciona que já passou noites pescando, dormindo à beira do rio e voltando com caixas cheias quando o dia ajudava.
O Rio das Antas, citado no vídeo como referência da região, é um dos cursos d’água importantes do Rio Grande do Sul. Ele nasce em São José dos Ausentes e percorre cerca de 390 km antes de, em determinado trecho, passar a ser chamado de Rio Taquari.
A conversa também chama atenção quando Lili explica nomes usados por pescadores, como espinhel e “espera”, sem transformar isso em tutorial, mas mostrando como tradições se mantêm vivas por linguagem e prática. Para parte do público urbano, esse tipo de relato funciona como uma aula informal sobre cultura rural, com saberes transmitidos mais pela experiência do que por manual.
Solidão, luto e comunidade como rede de apoio no interior
Apesar do tom leve em muitos momentos, Lili também fala de perdas que marcaram sua vida. Ele relata um período de tristeza após a morte da mãe e menciona a dor de perder um filho ainda adolescente, dizendo que precisou de tempo para reencontrar equilíbrio. O vídeo trata o tema de forma humana e sem sensacionalismo, como um depoimento de quem aprendeu a seguir adiante.
Ao mesmo tempo, ele descreve a comunidade como uma presença constante. Diz que é bem visto, que mantém respeito com todos e que recebe visitas com frequência, o que contrasta com a ideia de abandono que muita gente associa a morar longe.
A história termina com um conselho simples, mas que divide opiniões. Lili afirma que felicidade está em fazer o que se sente no coração, sem viver para agradar os outros. É aí que nasce a polêmica que o vídeo deixa no ar, viver isolado é um ato de liberdade, ou pode esconder uma falta de alternativas e apoio para envelhecer no interior.
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