África se parte milímetro a milímetro, fraturas e vulcões no leste do continente expõem o nascimento lento de um novo oceano
Rachas discretas surgem no leste africano e placas tectônicas se afastam pouco a pouco, enquanto lagos se alongam e vulcões seguem ativos. Um novo desenho do mapa, em escala geológica, começa a tomar forma.
Ao longo do leste da África, sinais na paisagem indicam um processo profundo e silencioso. Desertos se expandem, lagos se estendem e vulcões mantêm atividade contínua, enquanto a crosta terrestre se deforma. O resultado é a abertura do Rift da África Oriental, um sistema de fraturas que estica o continente.
Medições por GPS registradas nas últimas décadas mostram que a placa somali se afasta em direção ao sudeste a cerca de 6 mm por ano. Esse ritmo é imperceptível no tempo humano, mas decisivo em milhões de anos. O movimento cria vales alongados, falhas profundas e eleva o risco de abalos moderados em áreas próximas.
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Segundo artigos publicados na revista científica Tectonics, o que ocorre no leste africano repete padrões que já abriram oceanos no passado. Primeiro, a crosta continental se alonga e afunda em blocos; depois, bacias se formam; só muito depois surge um assoalho oceânico. É um roteiro conhecido na tectônica de placas.
Modelagens geodinâmicas citadas por centros de divulgação científica internacionais projetam um cenário marcante. Em algo entre 5 e 10 milhões de anos, setores do vale do Rift e da depressão de Danakil podem ser invadidos por água marinha, separando o Chifre da África do restante do continente.
O que é o Rift da África Oriental, como a fratura redesenha Etiópia Quênia Tanzânia e Moçambique
O Rift da África Oriental é um imenso vale tectônico que corta o leste do continente, do Moçambique ao mar Vermelho. Em países como Etiópia, Quênia, Tanzânia e Moçambique, a crosta foi esticada e fraturada, formando depressões alinhadas e escarpas.
Essa zona de estiramento cria corredores onde a litosfera afunda e se fragmenta. Na superfície, o resultado são lagos longos e profundos, vulcanismo ativo e fissuras que podem se abrir e se alongar com o tempo. É ali que o continente dá seus primeiros passos rumo à separação.
Afar e o ponto triplo, onde placas árabe somali e núbia se separam e revelam um oceano em gestação
No nordeste da Etiópia, a região de Afar concentra um dos cenários geológicos mais singulares do planeta. Ali se encontra um ponto triplo, onde a placa árabe, a placa somali e a placa núbia se separam, gerando fissuras, campos de lava e vulcões ativos.
As medições geodésicas confirmam o afastamento milimétrico entre esses blocos, com a placa somali migrando cerca de 6 mm por ano para o sudeste. Segundo a Tectonics, esse comportamento é compatível com o início de uma ruptura continental, etapa que antecede a abertura de oceanos.
Os indícios estão espalhados pela paisagem. Lagos como o Tanganica e o Maláui ocupam vales abatidos ao longo das grandes falhas do rift. Vulcões como o Nyiragongo, o Ol Doinyo Lengai e o Erta Ale recebem magma que ascende por essas fraturas, alimentando erupções e derrames de lava que remodelam o terreno.
A depressão de Danakil, em Afar, está entre as áreas mais baixas e quentes do planeta, marcada por solos coloridos por minerais, fumarolas e lava recente. Essa combinação de abatimento e calor interno indica que a crosta está afinando e que o manto sobe, etapa típica de rifteamento.
Projeções citadas por centros internacionais de ciência sugerem que, em 5 a 10 milhões de anos, a água do oceano pode invadir partes do rift. Nesse quadro, Somália, Djibuti, Eritreia e áreas do Quênia e da Etiópia se tornariam um bloco separado a leste, enquanto a chamada África “clássica” permaneceria a oeste, divididas por um novo corpo d’água.
Cidades e riscos no caminho da falha, o que Nairóbi Kampala e Adis Abeba precisam considerar
Grandes centros urbanos estão próximos a áreas de deformação do terreno. Nairóbi, Kampala e Adis Abeba convivem com o potencial de abalos sísmicos moderados, deslizamentos e riscos indiretos associados ao vulcanismo regional. O dia a dia segue normal, mas o subsolo muda devagar e sem trégua.
Especialistas recomendam que normas de construção considerem o contexto do Rift da África Oriental. Obras como represas, rodovias, oleodutos e linhas de transmissão devem ser reforçadas em zonas de falha ativa, com monitoramento sísmico contínuo e planos de contingência para erupções ou tremores.
No horizonte humano, a separação continental não é uma ameaça direta. O perigo real está nos fenômenos associados ao processo, que já ocorrem hoje e exigem políticas públicas de prevenção e adaptação baseadas em evidências.
Do Gondwana ao futuro mar, o que a ciência projeta e o que muda para clima e biodiversidade
A África já integrou o supercontinente Gondwana, e sua história geológica registra aberturas e colisões repetidas. De acordo com estudos na Tectonics, o padrão atual no leste africano lembra o da separação entre América do Sul e África que criou o Atlântico Sul, começando com fraturas, passando por bacias e culminando em um oceano.
Grandes fraturas não alteram apenas mapas. Elas afetam correntes oceânicas, clima e a distribuição de espécies ao isolar regiões. Caso se forme um novo mar no leste africano, rotas de umidade, migrações e ecossistemas podem se reorganizar, repetindo processos de diversificação que já moldaram a biodiversidade no passado.
O tema divide opiniões e suscita dúvidas legítimas, e sua opinião é essencial para ampliar o debate público. O que você considera mais urgente, reforçar a infraestrutura urbana agora ou investir em pesquisa de longo prazo para entender o rifteamento africano? A abertura de um futuro oceano traria mais oportunidades ou riscos para as populações do Chifre da África? Deixe seu comentário e participe dessa conversa sobre um continente que se reinventa em câmera lenta.
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