Mulheres avançam em escolaridade, mas gênero e raça ainda travam entrada, salário e permanência no mercado de trabalho brasileiro
Desigualdade no trabalho continua forte no Brasil e pesa mais sobre mulheres, especialmente pretas e pardas
As mulheres brasileiras avançaram em autonomia e escolaridade nas últimas décadas, mas ainda enfrentam barreiras persistentes para entrar, permanecer e crescer no mercado de trabalho. O problema não se resume à contratação: ele também aparece nos salários, na sobrecarga doméstica e nas diferenças que se aprofundam quando gênero e raça se cruzam.
Essa leitura aparece em um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, a FGV, que analisou as desigualdades no mercado sob a perspectiva de gênero. A pesquisa mostra que a desigualdade não é pontual, mas estrutural, e ajuda a explicar por que muitas mulheres ainda trabalham mais e recebem menos.
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Uma das autoras do levantamento, a economista Isabela Duarte Kelly, detalhou que a taxa de participação feminina no mercado de trabalho é muito inferior à masculina. O dado mais alarmante é que essa participação é metade da observada entre os homens, revelando uma distância ainda grande na ocupação de vagas e na estabilidade profissional.
A dupla e até tripla jornada ajuda a explicar por que tantas mulheres ficam fora do mercado de trabalho
Entre as mulheres que estão fora do mercado, uma parte expressiva relata que o principal motivo é a necessidade de cuidar da casa e da família. O estudo mostra que 30% responderam que não trabalham porque precisam dedicar tempo aos afazeres domésticos, como cuidar dos filhos, lavar louça e supervisionar tarefas da rotina da casa.
Esse peso do trabalho não remunerado ajuda a entender por que a entrada feminina no mercado acontece, muitas vezes, em condições mais difíceis. Enquanto os homens seguiram, em grande medida, associados ao papel social de provedores, as mulheres passaram a acumular funções e a dividir o tempo entre emprego, casa e cuidados.
Na prática, isso gera um efeito em cascata. A dificuldade de manter uma rotina profissional estável reduz a autonomia financeira, aumenta a dependência econômica e limita oportunidades de qualificação, promoção e permanência em empregos formais.
Escolaridade mais alta não garante igualdade salarial e expõe uma distorção histórica no mercado de trabalho
Outro ponto central da pesquisa é que o nível de escolaridade influencia a renda, mas não elimina a desigualdade. Em geral, quanto maior a formação, maior tende a ser o salário, mas essa lógica não corrige a diferença entre homens e mulheres.
O estudo mostra uma contradição importante. As mulheres têm nível de escolaridade maior que o dos homens em muitos casos e, ainda assim, seguem recebendo menos para exercer funções semelhantes, o que evidencia que a diferença salarial não pode ser explicada apenas por qualificação.
Essa distorção ajuda a derrubar um argumento muito comum no debate público, o de que bastaria estudar mais para alcançar igualdade no trabalho. A formação é importante, mas o mercado continua reproduzindo obstáculos que atingem mulheres mesmo quando elas chegam mais preparadas.
Raça aprofunda a desigualdade e mostra que a experiência das mulheres no trabalho não é a mesma para todas
Um dos alertas mais relevantes do levantamento é que não existe uma experiência única entre as mulheres brasileiras. A análise mostra que olhar apenas para gênero pode esconder desigualdades internas muito profundas, principalmente quando o recorte racial entra na discussão.
As mulheres pretas e pardas podem até apresentar taxa de participação relativamente parecida com a das mulheres brancas, mas enfrentam uma diferença salarial muito significativa. Isso indica que a permanência no mercado e a remuneração são atravessadas por um filtro racial que agrava a exclusão.
Na prática, isso significa que duas mulheres com trajetórias parecidas podem viver realidades bastante diferentes no trabalho. O acesso à vaga, a remuneração, a chance de promoção e a estabilidade profissional tendem a ser mais difíceis para quem enfrenta, ao mesmo tempo, desigualdade de gênero e racismo.
Esse cenário reforça a necessidade de políticas de inclusão mais precisas, capazes de considerar a diversidade das trajetórias femininas. Tratar todas as mulheres como um grupo homogêneo acaba apagando as camadas mais duras da desigualdade.
Debate ganhou espaço em abril de 2026 e reforça a urgência de discutir emprego, renda e cuidado no país
O tema voltou ao centro do debate público em 15 de abril de 2026, quando os dados foram apresentados e comentados por Isabela Duarte Kelly no programa É de Manhã. A atração vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM, na Grande São Paulo, com transmissão simultânea pelo YouTube do Brasil de Fato.
Mais do que retratar um problema antigo, a discussão chama atenção para um ponto imediato da economia brasileira. Sem enfrentar a divisão desigual do cuidado, a discriminação salarial e o recorte racial nas contratações, o país seguirá desperdiçando talento e ampliando a vulnerabilidade de milhões de trabalhadoras.
Falar de mercado de trabalho, desigualdade de gênero e raça é falar também de renda, crescimento e justiça social. O problema está nos números, na rotina e nas oportunidades negadas todos os dias.
E na sua opinião, o que mais pesa hoje para dificultar a entrada e a permanência das mulheres no mercado de trabalho? Deixe seu comentário e conte se essa desigualdade aparece mais no acesso às vagas, nos salários ou na sobrecarga dentro de casa.
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