Sobrecarga do trabalho doméstico empurra mulheres para fora do mercado em Minas Gerais e faz jovens negras concentrarem os piores indicadores
Boletim sobre autonomia econômica em Minas Gerais mostra que o cuidado não remunerado segue travando o emprego feminino e aprofunda a desigualdade racial
O trabalho doméstico e o cuidado com familiares são hoje a principal barreira para muitas mulheres entrarem ou permanecerem no mercado de trabalho em Minas Gerais. O impacto é mais duro entre as mulheres negras, especialmente as jovens, que aparecem com os piores indicadores de inatividade e desemprego no Estado.
Os dados foram reunidos em boletim do Observatório do Trabalho de Minas Gerais, com apoio da Fundação João Pinheiro e da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social de Minas Gerais, Sedese. O levantamento analisa a autonomia econômica da população de 18 a 65 anos e deixa claro que gênero e raça ainda pesam fortemente na inserção produtiva.
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No recorte mais crítico, 50,8% das jovens negras inativas disseram que não procuram emprego por causa dos afazeres domésticos e do cuidado com parentes. Entre as mulheres brancas, esse percentual é de 27,4%, enquanto entre os homens a incidência é muito menor, com 1,6% entre brancos e 4,1% entre negros.
Na prática, o estudo reforça que a chamada economia do cuidado tem efeito direto sobre renda, ocupação e autonomia. Quando esse trabalho fica concentrado dentro de casa e quase sempre nas mãos das mulheres, a chance de inserção profissional encolhe.
Jovens mulheres seguem mais afastadas do mercado de trabalho e a distância para os homens permanece alta em Minas Gerais
Entre pessoas de 18 a 29 anos, as mulheres continuam mais fora da força de trabalho do que os homens. Entre as jovens brancas, 30,9% estão fora do mercado, percentual que sobe para 32,0% entre as jovens negras.
Entre os homens, os índices são bem menores. O levantamento mostra 17,0% de homens brancos fora da força de trabalho e 13,6% entre homens negros.
Os números indicam que o afastamento feminino não pode ser tratado como algo pontual. Há um padrão estrutural em que o cuidado com a casa, filhos, idosos e outros familiares reduz o tempo disponível para buscar emprego, estudar ou manter uma carreira estável.
Desemprego atinge mais as mulheres negras mesmo com melhora geral da economia e redução das taxas em 2025
No quarto trimestre de 2025, os homens brancos registraram a menor taxa de desocupação em Minas Gerais, com 3,5%. Em seguida aparecem os homens negros, com 4,6%.
Entre as mulheres, o desemprego foi mais alto. As mulheres brancas tiveram taxa de 5,5%, enquanto as mulheres negras alcançaram 9,9%, o pior resultado entre todos os grupos analisados.
Para a economista e professora de história Pamela Sobrinho, esse quadro mostra que o problema não decorre de escolha individual. Para ela, a ausência de políticas que reconheçam o cuidado como parte da infraestrutura da economia mantém barreiras concretas à autonomia econômica feminina.
Pamela ressalta ainda que o desempenho da economia, por si só, não resolve desigualdades históricas. Mesmo em um cenário de crescimento e queda geral do desemprego, as mulheres negras seguiram com uma taxa de desocupação quase três vezes maior do que a observada entre homens brancos.
Grupo que não trabalha, não estuda e não procura vaga cresce entre mulheres e atinge uma em cada quatro jovens negras
O estudo também cruzou os dados de trabalho e educação. Entre os homens brancos, 67,0% estão na condição de “só trabalham ou procuram emprego”, índice que chega a 76,2% entre homens negros.
Entre as mulheres, os percentuais são menores, com 50,0% entre brancas e 55,1% entre negras. Essa diferença ajuda a explicar por que a autonomia econômica feminina avança mais devagar.
No grupo de quem não trabalha, não estuda e não procura emprego, a desigualdade fica ainda mais forte. O percentual é de 6,3% entre homens brancos e 9,1% entre homens negros.
Entre as mulheres, os números sobem para 17,1% entre brancas e 24,9% entre negras. Isso significa que uma em cada quatro jovens negras está nessa condição, cenário ligado diretamente à responsabilidade com tarefas domésticas e de cuidado não remuneradas.
Renda menor e maior vulnerabilidade reforçam o peso da desigualdade de gênero e raça na autonomia econômica
Entre pessoas de 18 a 65 anos, 77,0% dos homens brancos e 77,2% dos homens negros estão na condição de “com renda e não estuda”. Entre as mulheres, os percentuais são mais baixos, com 56,6% entre brancas e 55,0% entre negras.
Na faixa de quem está sem renda e não estuda, a vulnerabilidade feminina aparece com mais nitidez. O índice é de 13,5% entre homens brancos e 16,8% entre homens negros.
Entre as mulheres, os percentuais praticamente dobram. O levantamento aponta 31,8% entre mulheres brancas e 36,1% entre mulheres negras, mostrando como a falta de renda própria e a exclusão educacional caminham juntas.
Para Pamela Sobrinho, esse retrato exige uma política integrada de inserção econômica feminina. A avaliação é que não basta abrir vagas ou oferecer qualificação se as condições que impedem a permanência das mulheres no trabalho não forem enfrentadas com creches, serviços públicos de cuidado e divisão mais equilibrada dessas responsabilidades.
Minas Gerais aposta em qualificação, costura e economia solidária, mas desafio do cuidado ainda exige resposta mais ampla
A Sedese informou que mantém ações voltadas à autonomia econômica das mulheres e à redução das desigualdades no mercado de trabalho. O foco está em mulheres em situação de vulnerabilidade social, com iniciativas de qualificação profissional, geração de renda e fortalecimento de cadeias produtivas locais.
Entre os programas citados está o Minas Forma Delas, criado para ampliar a participação feminina em áreas com baixa presença de mulheres. A ação prevê 16 mil vagas em mais de cem municípios, com investimento de cerca de R$ 30 milhões em parceria com SENAC, SENAI e a Foco, Comunidade Empreendedora.
Outro destaque é o Trajeto Moda, que trabalha costura, empreendedorismo e gestão para geração de renda. O projeto está presente em 52 municípios, já capacitou mais de 700 mulheres e distribuiu 1.083 máquinas, somando investimento de R$ 23 milhões.
A meta do Trajeto Moda é chegar a 122 cidades até o fim de 2026 e alcançar 1.700 mulheres. Já o Trajeto Renda, voltado à inserção produtiva e à produção autogestionária, atende majoritariamente mulheres, que representam cerca de 80% dos participantes e somam mais de 10 mil atendidas.
No ciclo 2025-2027, que abrange 56 municípios da área da Sudene, há 2.111 pessoas ativas, das quais 1.710 são mulheres. A pasta também destacou ações de economia popular solidária com investimento superior a R$ 1,8 milhão, movimentação de mais de R$ 307 mil em vendas e benefício a quase 2 mil empreendedores.
Envelhecimento da população e falta de rede pública de cuidado podem ampliar pressão sobre as mulheres nos próximos anos
O debate vai além do emprego imediato. O envelhecimento populacional tende a aumentar a demanda por cuidado dentro das famílias, o que pode ampliar ainda mais a sobrecarga feminina se o poder público não estruturar uma rede robusta de apoio.
Pamela Sobrinho lembra que países como a Argentina e nações europeias já incorporaram o cuidado em políticas previdenciárias e sociais, com reconhecimento do tempo dedicado à criação dos filhos para fins de aposentadoria e com maior oferta de serviços públicos. Esse tipo de iniciativa ajuda a reduzir a penalização econômica de quem cuida.
Em Minas Gerais, os dados de 2025 mostram que houve avanço, mas de forma desigual. Sem decisão política, investimento público e mudança cultural, a tendência é que as desigualdades de gênero e raça continuem se reproduzindo no mercado de trabalho.
O cuidado sustenta a economia, mas segue invisível nas estatísticas tradicionais do emprego. Quando ele recai quase todo sobre as mulheres, especialmente as negras, o resultado aparece em menos renda, menos ocupação e menos autonomia.
Você percebe esse impacto do trabalho doméstico e do cuidado na vida profissional das mulheres ao seu redor? Deixe seu comentário e conte se esse desafio também aparece na sua cidade ou na sua família.
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