Salário ainda pesa, mas já não segura talentos sozinho e empresas correm para adaptar benefícios, home office e bônus ao que cada geração realmente busca
Pesquisa com 1.521 profissionais mostra que o mercado de trabalho brasileiro entrou em uma fase em que salário, flexibilidade, propósito e benefícios dividem espaço na decisão de carreira
O mercado de trabalho brasileiro vive uma mudança clara na forma como os profissionais escolhem onde trabalhar e por quanto tempo pretendem ficar. A remuneração continua importante, mas já não basta sozinha para atrair e reter talentos em equipes formadas por diferentes gerações.
Levantamento da Serasa Experian, publicado em 3 de abril de 2026, mostra que 33,1% dos trabalhadores brasileiros apontam o salário como principal critério na escolha de um emprego. A pesquisa ouviu 1.521 profissionais e reforça que o custo de vida voltou a colocar a remuneração no centro das decisões.
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Ao mesmo tempo, benefícios, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, flexibilidade e alinhamento com os valores da empresa ganharam força. Na prática, isso pressiona líderes e empresas a abandonar modelos padronizados de gestão e a investir em propostas mais ajustadas ao perfil de cada colaborador.
Esse cenário ajuda a explicar por que a convivência entre Geração Z, Millennials, Geração X e Baby Boomers se tornou um desafio estratégico. Mais do que administrar funções, as lideranças agora precisam entender expectativas, valores e visões de carreira bastante diferentes.
Cada geração prioriza um aspecto diferente e isso muda a forma como empresas precisam desenhar trabalho, benefícios e reconhecimento
A leitura por faixa etária deixa evidente que não existe mais uma fórmula única de atração de talentos. A Geração Z, formada por nascidos entre 1997 e 2012, mostra preferência mais clara pelo home office e pela flexibilidade, o que reforça a busca por autonomia e melhor integração entre vida pessoal e profissional.
Entre os Millennials, o peso maior recai sobre bônus e remuneração variável. O dado reflete um perfil mais orientado a performance, metas e resultados, em que a compensação financeira vinculada ao desempenho tem forte valor na percepção de crescimento.
Já a Geração X, composta por nascidos entre 1965 e 1980, prioriza a autonomia na execução das atividades. Nesse grupo, a liberdade para trabalhar com menos interferência e mais confiança aparece como fator decisivo de permanência e engajamento.
Entre os Baby Boomers, nascidos entre 1946 e 1964, o destaque vai para inovação e novas metodologias de trabalho. Nesse público, 8,8% apontam esses fatores como decisivos, percentual superior ao observado nas demais gerações, o que mostra que profissionais mais experientes também estão atentos à renovação do ambiente corporativo.
Outro ponto relevante é o avanço do senso de propósito entre trabalhadores mais maduros. Isso indica que fatores intangíveis, como significado no trabalho e identificação com a empresa, passaram a influenciar de forma mais concreta o vínculo com a organização.
Salário segue como porta de entrada, mas retenção depende de experiência de trabalho mais ampla e conectada à vida real do profissional
O aumento da importância do salário não significa que ele resolva o problema da retenção. Na prática, ele continua sendo a porta de entrada, especialmente em um contexto de pressão sobre o orçamento das famílias, mas sua capacidade de manter profissionais por mais tempo vem diminuindo.
Esse movimento fica mais visível quando se observa a rotina das empresas. Profissionais valorizam cada vez mais uma combinação entre qualidade de vida, desenvolvimento profissional, benefícios relevantes e flexibilidade, o que obriga as organizações a rever pacotes tradicionais de proposta de valor.
Andre Purri, CEO da Alymente, resume essa mudança ao afirmar que o comportamento dos profissionais passou por uma transformação estrutural. Na visão do executivo, os trabalhadores não escolhem mais uma empresa apenas pelo salário, já que benefícios, flexibilidade e alinhamento com valores corporativos se tornaram fatores decisivos para engajar e reter.
Liderança precisa trocar políticas iguais para todos por escuta ativa, personalização e conexão entre estratégia e expectativa individual
Com múltiplas gerações atuando ao mesmo tempo nas empresas, a padronização de práticas de gestão tende a perder eficácia. O desafio das lideranças passou a ser menos operacional e mais humano, exigindo capacidade real de escuta e leitura de contexto.
Isso significa compreender que o mesmo pacote de benefícios pode ser atrativo para um grupo e irrelevante para outro. Enquanto parte dos profissionais quer liberdade geográfica e home office, outros preferem bônus, autonomia, aprendizagem contínua ou um ambiente mais conectado a propósito.
Nesse cenário, a personalização da gestão deixou de ser um diferencial e virou requisito competitivo. Empresas que conseguem adaptar jornadas, reconhecimento e benefícios a diferentes momentos de vida tendem a reduzir turnover e elevar a produtividade.
A mudança também altera o papel da liderança. Em vez de apenas cobrar entrega, líderes passam a ter a missão de conectar a estratégia do negócio com as expectativas individuais de carreira, criando times mais engajados, resilientes e consistentes no longo prazo.
Benefícios flexíveis ganham força e transformam gestão de pessoas em peça central para reduzir turnover e aumentar produtividade
O avanço dos modelos de benefícios flexíveis reforça essa transformação no mercado de trabalho. Cada vez mais, empresas estruturam propostas adaptáveis, capazes de atender diferentes prioridades profissionais e fases da vida.
Com isso, a gestão de benefícios deixa de ser apenas uma tarefa administrativa e passa a influenciar diretamente a estratégia de retenção. O pacote oferecido pela empresa se torna parte da experiência de trabalho e da percepção de valor construída pelo colaborador.
Esse novo equilíbrio mostra que o modelo tradicional, baseado em estabilidade e progressão linear, perde espaço para trajetórias mais dinâmicas e individualizadas. Para muitas organizações, entender o que cada geração realmente quer já virou uma alavanca direta de performance.
Até a presença digital das marcas empregadoras entra nessa equação, inclusive em canais como o LinkedIn, onde cultura, flexibilidade e oportunidades costumam ser observadas com atenção por candidatos de diferentes perfis.
No fim, o recado é objetivo. Salário continua relevante, mas retenção hoje depende de sentido, flexibilidade e adaptação a uma força de trabalho cada vez mais diversa.
Na sua visão, qual fator pesa mais na escolha de um emprego hoje, salário, home office, bônus, propósito ou autonomia? Deixe seu comentário e conte como essa mudança entre gerações aparece na sua realidade profissional.
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