Nova licença-paternidade avança no papel, expõe divisão desigual dentro de casa e tenta mudar a cultura do cuidado no Brasil
A nova lei amplia a licença-paternidade de forma gradual, cria proteção no emprego e coloca no centro um debate que vai além do trabalho, a divisão real do cuidado com os filhos
A sanção da Lei Complementar 229/26, feita na segunda-feira, 30, levou a licença-paternidade a um novo patamar no Brasil. A medida amplia o benefício de forma escalonada, cria estabilidade no emprego e tenta enfrentar um problema antigo, a concentração das tarefas de cuidado nas mulheres.
Ao defender a mudança, o presidente Lula tratou a nova regra como instrumento de transformação cultural. A avaliação é que o avanço feminino no mercado de trabalho não foi acompanhado, na mesma velocidade, por uma redistribuição das responsabilidades dentro de casa.
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Na prática, a nova legislação busca incentivar a presença do pai desde os primeiros dias de vida da criança. O texto também sinaliza que o cuidado com banho, fralda, sono e rotina doméstica não deve ser visto como ajuda eventual, mas como corresponsabilidade familiar.
A cerimônia de sanção ocorreu de forma reservada no Palácio do Planalto. Participaram integrantes do governo, a deputada Tabata Amaral (PSB-SP), autora do PLP 5.811/25, e o deputado Pedro Campos (PSB-PE), relator da proposta, além de ministros da área política e do trabalho.
Quando a nova licença-paternidade começa a valer e como será o aumento até 2029
A ampliação não entra em vigor de uma vez. O cronograma aprovado determina que a nova licença-paternidade passe a valer em 1º de janeiro de 2027, com aumento progressivo do número de dias.
O calendário ficou assim, 10 dias em 2027, 15 dias em 2028 e 20 dias a partir de 2029. A transição gradual foi desenhada para permitir adaptação das empresas e reduzir impactos no setor produtivo.
Mesmo com o avanço, o Brasil ainda permanece longe dos modelos mais amplos adotados em outros países. Ainda assim, a mudança representa uma inflexão relevante em um sistema historicamente restritivo para os pais trabalhadores.
Estabilidade no emprego e possibilidade de parcelamento tentam garantir uso real do direito
Um dos pontos mais importantes da nova lei é a estabilidade no emprego. O trabalhador passa a ter proteção desde a comunicação da paternidade até 1 mês após o fim da licença, em mecanismo semelhante ao já assegurado às gestantes.
A regra tenta evitar retaliações e reduzir o receio de pais que, mesmo tendo direito ao afastamento, ainda enfrentam resistência em alguns ambientes de trabalho. Sem essa blindagem, a licença poderia existir formalmente, mas ser esvaziada na prática.
Outro dispositivo relevante é a possibilidade de dividir a licença em 2 períodos. A condição é que pelo menos metade do tempo seja usada nos primeiros dias após o nascimento, preservando a presença imediata do pai e abrindo espaço para flexibilidade nas semanas seguintes.
Esse modelo procura atender tanto a rotina familiar quanto a realidade das empresas. Em vez de tratar o afastamento como simples ausência do trabalho, a lei reconhece a importância do vínculo inicial entre pai e filho.
O que a fala de Lula revela sobre o atraso cultural e a tentativa de reequilibrar as tarefas domésticas
Durante a sanção, Lula resumiu o problema com uma frase que repercutiu no debate público. Ao dizer que “essa lei vai ensinar os homens a cuidar dos filhos”, o presidente colocou foco em atividades cotidianas ainda desigualmente distribuídas, como dar banho, trocar fraldas e acordar durante a noite.
Em outro momento, ele afirmou que a mulher já conquistou o mercado de trabalho, mas o homem ainda não conquistou a cozinha. A frase sintetiza uma distorção estrutural do país, em que muitas mulheres acumulam emprego formal e trabalho doméstico não remunerado.
A ampliação da licença-paternidade surge justamente nesse contexto. O objetivo não é apenas aumentar dias de afastamento, mas criar uma política pública capaz de induzir mudança de comportamento dentro das famílias e também nas empresas.
Esse tipo de ajuste legal ganha ainda mais peso em um cenário de discussões sobre produtividade, renda e organização do trabalho, temas que também dialogam com dados públicos como os Indicadores da Economia Brasileira. No fundo, a divisão do cuidado também afeta participação no mercado, permanência no emprego e trajetória profissional das mulheres.
Organizações sindicais e entidades do mundo do trabalho, entre elas a CSB, acompanham esse tipo de mudança com atenção porque o impacto vai além da família. A nova regra mexe com relações trabalhistas, proteção social e equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal.
Como o Brasil se compara com outros países e por que a nova regra ainda está longe dos modelos mais avançados
No cenário internacional, o tempo de licença-paternidade ou licença parental para pais é bem mais amplo em diversos países. A Coreia do Sul oferece cerca de 52,6 semanas, enquanto o Japão garante 52 semanas e a Espanha assegura 16 semanas remuneradas.
No modelo nórdico, o foco costuma estar na licença parental compartilhada. A Islândia, por exemplo, oferece 3 meses exclusivos para o pai, 3 para a mãe e mais 3 divididos entre ambos, incentivando uma divisão mais equilibrada do cuidado.
Outros exemplos mostram que a distância brasileira ainda é grande. A Eslovênia oferece 90 dias, a Finlândia 54 dias e a Noruega 14 semanas.
Na América Latina, o Uruguai se destaca com 12 semanas, em modelo de ampliação gradual, enquanto o Chile oferece cerca de 1 semana. Nos Estados Unidos, não existe lei federal de licença-paternidade remunerada, e a FMLA garante apenas licença não remunerada de até 12 semanas para empresas com mais de 50 funcionários.
Na China, a licença varia conforme as províncias, entre 7 e 30 dias, em geral com salário integral. Esse panorama mostra que o Brasil avança, mas ainda está distante dos países que tratam o cuidado como política central de igualdade entre homens e mulheres.
Por que a ampliação da licença-paternidade não encerra o debate e pode abrir uma nova fase nas relações familiares
A nova lei não resolve sozinha a desigualdade na divisão do cuidado. O maior desafio continua sendo cultural, porque o direito pode existir no papel e, ainda assim, encontrar barreiras nas empresas, na rotina das famílias e na própria forma como a sociedade enxerga o papel masculino.
Ao mesmo tempo, a mudança cria um marco importante. Ao ampliar o afastamento, garantir estabilidade e permitir parcelamento, o Brasil reconhece que a presença do pai no início da vida da criança tem valor social, afetivo e econômico.
Se a nova licença-paternidade conseguirá transformar hábitos arraigados, isso dependerá da adesão real ao benefício e da pressão por ambientes de trabalho mais modernos. O fato é que a sanção da LC 229/26 inaugura um debate em outro nível, com impacto direto sobre família, emprego e igualdade de gênero.
E na sua avaliação, a ampliação da licença-paternidade pode mudar de verdade a divisão do cuidado dentro de casa? Deixe seu comentário e conte se você acredita que empresas, pais e famílias estão preparados para essa nova etapa.
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