Laboratoria redesenha a formação de mulheres para tecnologia na era da inteligência artificial, com foco em habilidades digitais e conexão com o mercado em toda a América Latina
Formação redesenhada para mulheres em tecnologia, com foco em IA e conexão com empresas
Há mais de dez anos, a Laboratoria, criada no Peru, emergiu para aproximar mulheres de carreiras em tecnologia na América Latina. O contexto mudou com a ascensão da inteligência artificial e a competição global, e a organização ajustou sua abordagem para responder a um mercado mais complexo e exigente. O objetivo agora é preparar para a incerteza, fortalecendo competências práticas e comportamentais que sustentam a empregabilidade.
No Brasil, a cofundadora Regina Acher observa que as empresas passaram a exigir mais do que domínio técnico. Inglês, vivência prévia, capacidade de atuar em trabalho remoto e autonomia se tornaram atributos decisivos, inclusive para posições de entrada. Profissionais mais experientes disputam vagas júniores, o que pressiona ainda mais quem está começando.
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Ao longo da trajetória, a Laboratoria formou mais de 10 mil mulheres na região. Em anos anteriores, seus programas intensivos de seis meses chegaram a registrar taxas de empregabilidade superiores a 80%, um reflexo direto de um mercado aquecido. O cenário atual não permite promessas de contratação imediata, e a estratégia foi redesenhada para sustentar a inserção com repertório mais amplo.
O novo desenho da formação migra do foco central na programação para três frentes integradas. São elas o desenvolvimento de autoconfiança e repertório, o fortalecimento de habilidades digitais e uso de IA e a conexão com o mercado e networking. Em vez de apenas “saber programar”, a profissional precisa, por exemplo, realizar uma análise em Python e aproveitar recursos de IA para ganhar velocidade e precisão.
Mercado de tecnologia mais exigente, o que mudou na década
A combinação de IA, expansão do trabalho remoto e maior concorrência internacional reconfigurou o que as empresas buscam. Hoje, o domínio de ferramentas precisa vir acompanhado de leitura de contexto, comunicação clara e capacidade de aprender continuamente. O resultado é um funil de contratação mais criterioso desde as fases iniciais.
Esse movimento atinge com força posições júniores, pois candidatos com histórico mais robusto passaram a mirar essas vagas. A exigência por inglês e por experiências demonstráveis em times distribuídos virou padrão, especialmente em empresas com operações globais. Para quem está ingressando, construir portfólio e rede de contatos se tornou tão importante quanto aprender uma linguagem de programação.
Nesse ambiente, a formação voltada apenas para stacks específicas perde fôlego. O que se destaca é a habilidade de articular tecnologia e negócio, traduzindo dados em decisões e resultados. É esse o ponto de virada que a Laboratoria coloca no centro.
Nova estratégia da Laboratoria, três frentes para formar e conectar
Na dimensão de autoconfiança e repertório, a proposta é fortalecer a tomada de decisão, a gestão do tempo e o entendimento de problemas reais. Isso inclui construir narrativa profissional, evidenciar entregas e desenvolver presença em processos seletivos e ambientes colaborativos.
Em habilidades digitais, a ênfase está em dados, automações, práticas de versionamento e no uso prático de IA para pesquisa, prototipação e análise. Já na conexão com o mercado, a rede de contatos, mentorias e projetos com empresas assumem papel central para abrir portas e encurtar a distância entre qualificação e contratação.
Empregabilidade, números e desafios para mulheres na América Latina
O histórico da organização ajuda a dimensionar o impacto dessas mudanças. Com programas de seis meses, a Laboratoria já havia alcançado índices de empregabilidade acima de 80% em períodos de maior aquecimento do setor. A virada para um mercado menos previsível exigiu priorizar habilidades transferíveis e adaptáveis, sem perder o vínculo com as demandas reais das empresas.
A organização também identificou barreiras de tempo e cuidado que pesam sobre mulheres, o que dificulta aderir a formações longas e intensivas. Esse fator, combinado a ciclos econômicos incertos, impõe a necessidade de trilhas mais flexíveis e orientadas a resultados. O desenho atual busca mitigar esse gargalo sem abrir mão de qualidade.
Há ainda um componente estrutural nos países da região. Mesmo quando inseridas no mercado formal, mulheres recebem, em média, cerca de 20% a menos do que homens em funções equivalentes. Em transições tecnológicas aceleradas, como a que a IA impulsiona, o risco é ampliar lacunas salariais e de participação se não houver investimento direcionado.
Ao enfatizar que existe talento subutilizado e demanda latente por essas competências, a Laboratoria atua na interseção entre inclusão e produtividade. Times com diversidade ampliam repertório e qualidade de decisão, reduzindo vieses e ampliando o escopo de soluções. Esse é um argumento econômico e de inovação, não apenas social.
Diversidade e inovação, por que empresas devem agir agora
Para as empresas, a mensagem é clara. Projetos estratégicos ganham quando há pluralidade de experiências, e essa pluralidade depende de ações intencionais de formação e de portas de entrada mais justas. A diversidade deixou de ser pauta periférica e se tornou alavanca de desempenho.
Para as profissionais, o recado é construir base sólida em dados, produto e colaboração, e usar a IA como alavanca de produtividade. Combinar repertório técnico com leitura de negócio, networking e entregas práticas continua sendo o caminho mais curto entre qualificação e oportunidade.
Sobre o IT Forum e a cobertura, quem assina a reportagem
O IT Forum é um produto do grupo IT Mídia, saiba mais. A diretora de Marketing e Conteúdo da Itaqui e editora-chefe do IT Forum, Déborah Oliveira, é jornalista com mais de 17 anos de experiência em TI, tendo passado por Computerworld, CIO e IDG Now!.
Em 2018, foi reconhecida como melhor Jornalista de TI no Brasil pelo Cecom, e em 2019 e 2020 voltou a se destacar na categoria Telecom. É coautora do livro “Da Informática à Tecnologia da Informação – Jornalistas Contam Suas Histórias”, publicado pela Reality Books em 2020.
Queremos ouvir sua opinião. Como a priorização de habilidades digitais, IA e networking pode acelerar a contratação de mulheres em tecnologia na sua empresa ou região? Quais competências você considera mais urgentes para encurtar a distância entre formação e primeiro emprego?
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