Nos Estados Unidos, avanço de automação e robótica acende alerta de sindicatos e Senado para perda de até 100 milhões de empregos e riscos à democracia e à infraestrutura
Alerta de sindicatos e Senado dos EUA, avanço de automação ameaça milhões de postos de trabalho e pressiona redes de energia e água
Os Estados Unidos encaram um possível tsunami de empregos perdidos com a expansão acelerada da automação. Segundo a AFL-CIO e o senador Bernie Sanders (independente de Vermont), até 100 milhões de postos podem desaparecer na próxima década em vários setores, do fast-food à contabilidade.
O alerta foi reforçado em discurso na Universidade de Stanford, em Palo Alto (Califórnia), em evento com estudantes. Sanders associou o avanço tecnológico e a concentração de poder econômico a riscos para a democracia, citando bilionários como Elon Musk e Jeff Bezos.
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O senador baseou suas falas em relatório produzido pela equipe minoritária do Comitê de Trabalho do Senado, em cooperação com a AFL-CIO. Ele comparou a velocidade atual da transformação do mercado de trabalho a uma revolução “dez vezes mais rápida e com dez vezes mais alcance” que a Revolução Industrial.
Estimativas de impacto no emprego, automação pode atingir de fast-food à contabilidade
Além da estimativa de até 100 milhões de empregos perdidos nos EUA, a AFL-CIO destaca que a automação ameaça 300 milhões de empregos no mundo, incluindo quase metade das vagas norte-americanas. De acordo com a central, em alguns setores a tecnologia já decide contratação, escalas, avaliações e até demissões.
No varejo e em serviços, exemplos se multiplicam. A Hertz Rent-A-Car implantou sistema de locação de autosserviço com tecnologia de automação, e redes de fast-food expandem totens e caixas automatizados. Ferramentas digitais também já produzem resumos automáticos de textos e relatórios corporativos, reduzindo tarefas antes manuais.
Na logística, Jeff Bezos declarou interesse em automatizar parcial ou totalmente armazéns da Amazon, o que, segundo estimativas citadas por Sanders, pode custar até 600 mil empregos. O avanço da robótica em centros de distribuição acelera mudanças em ocupações como separação, etiquetagem e expedição.
Para dimensionar o momento, Sanders mencionou que quatro grandes empresas de tecnologia planejam investir US$ 670 bilhões neste ano em centros de dados, cifra que, proporcionalmente ao PIB, é dez vezes maior que o gasto do programa que levou o homem à Lua. A preocupação com quem ganha e quem perde com essa transformação pauta o debate público, segundo a AFL-CIO e o Relatório Paywatch 2023.
Respostas de sindicatos e universidades, negociação e capacitação para uso responsável
A AFL-CIO defende negociar desde já regras de uso da tecnologia com os empregadores, para que os trabalhadores participem das decisões e os ganhos de produtividade sejam compartilhados. Em 2023, a federação firmou com a Microsoft um acordo de supervisão conjunta do desenvolvimento tecnológico e neutralidade em campanhas de sindicalização na área, conforme comunicado público da empresa (parceria anunciada em 2023).
No campo educacional, o sindicato de professores Teachers/AFT fechou parceria com uma grande empresa do Vale do Silício para criar um instituto de formação de docentes sobre uso de novas tecnologias em sala de aula. O centro será instalado em Lower Manhattan, em Nova York, mirando atualização de competências e proteção de dados dos alunos.
Infraestrutura e contas públicas, centros de dados pressionam água e energia em estados e municípios
O avanço de grandes centros de dados movimenta investimentos e, ao mesmo tempo, gera resistência local. Cidades relatam consumo elevado de água e eletricidade por essas instalações, com riscos de alta nas tarifas e pressão sobre aquíferos e redes já sobrecarregadas, segundo relatos compilados por autoridades e entidades do setor.
Essa preocupação chegou aos governos estaduais. Em Illinois, o governador J.B. Pritzker havia sancionado em 2019 uma lei de incentivos fiscais para centros de dados, o que impulsionou a área metropolitana de Chicago a se tornar um dos maiores polos do país, conforme o Axios. Diante de queixas sobre aumento nas contas de luz, Pritzker propôs moratória de dois anos em novos incentivos, em discurso sobre a situação do estado.
Na Pensilvânia, o governador Josh Shapiro também ajustou seu posicionamento após vir à tona o impacto sobre contas de eletricidade e abastecimento de água relatado por eleitores. O movimento sinaliza que os estados buscam calibrar o equilíbrio entre atração de investimentos e custos para os consumidores e o meio ambiente.
Em nível municipal, há locais que discutem restrições ou até proibições a novas instalações por receio de escassez hídrica e picos de demanda elétrica. A tensão federativa se destaca porque esses projetos, embora gerem receita e empregos na construção, podem impor custos permanentes às comunidades.
Especialistas em infraestrutura defendem mapas de capacidade hídrica, tarifas que reflitam picos de consumo e metas de eficiência energética para novos empreendimentos. A discussão inclui fontes alternativas, como reuso de água e contratos de energia renovável, para mitigar impactos regionais.
Debate político e social, quem controla a tecnologia e quem se beneficia
Para Sanders, o ponto central é quem controla a tecnologia e para qual propósito. Ele sustenta que, sem regulação e negociação coletiva, a transformação tende a ampliar o fosso de renda e riqueza, gerar crise de saúde mental entre trabalhadores deslocados e fragilizar a democracia, ao concentrar poder econômico e informacional em poucos grupos.
O senador reconhece que a tecnologia não é boa nem má por natureza, mas alerta para escolhas políticas. A desilusão com instituições que não respondem às demandas do trabalho, afirmou, já alimentou a adesão de parte do eleitorado a promessas simplistas como o “só eu posso consertar isso”, associado à retórica de Donald Trump.
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