Desigualdade estrutural mantém 708 milhões de mulheres fora do trabalho e agrava barreiras em tecnologia enquanto risco da IA recai mais sobre elas em 2025

Mulheres em um escritório de tecnologia colaborando em frente a computadores, com poucas liderando a reunião
Participação feminina segue limitada em tecnologia e liderança, aponta ONU Mulheres
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Panorama global expõe a força do cuidado não remunerado e o avanço da IA como vetores da exclusão feminina no emprego

Cerca de 708 milhões de mulheres seguem fora da atividade econômica no mundo por conta da sobrecarga com cuidado não remunerado e da falta de tempo. O dado integra o Panorama de Gênero 2025, elaborado pela ONU Mulheres em parceria com o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU (DESA). Segundo o relatório, mesmo quando conseguem entrar no mercado, elas se concentram em postos de menor remuneração e com mais barreiras à progressão.

A desigualdade se intensifica no setor de tecnologia, onde mulheres representam apenas 29% da força de trabalho e ocupam 14% dos cargos de liderança globalmente. O estudo também alerta para os efeitos da inteligência artificial, com 28% dos empregos femininos potencialmente ameaçados, ante 21% entre os homens.

Especialistas ouvidos destacam que o avanço tecnológico não pode ser analisado sem considerar as assimetrias já existentes. Eles defendem mudanças na cultura das organizações e ações de base em educação para romper ciclos de exclusão e ampliar a participação feminina.

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Tecnologia amplia disparidades e risco da inteligência artificial pesa mais sobre ocupações femininas

No campo digital, os números revelam uma lacuna persistente. De acordo com a ONU Mulheres e o DESA, elas são minoria nas equipes e têm presença ainda menor em decisões estratégicas, o que limita salários e trajetórias. Esse cenário se soma ao risco da automação por IA, que atinge uma parcela maior dos empregos ocupados por mulheres.

Para Clara Cecchini, especialista em aprendizagem e inovação, graduada pela UNICAMP e com MBA pela FGV, o debate precisa reconhecer as desigualdades prévias. Ela observa que, no Dia Internacional das Mulheres, a celebração convive com a pergunta sobre o preço pago pela forma como a IA é usada hoje. Segundo Clara, estudos como o publicado na Harvard Business Review indicam que a tecnologia muitas vezes não reduz a carga, mas intensifica o ritmo e o volume de trabalho, o que tende a ampliar a pressão sobre quem já acumula jornadas.

Na avaliação da especialista, justiça de gênero na era digital significa não sustentar ganhos de eficiência à custa de cansaço invisível. Sem desenho de processos e políticas que considerem esse impacto, o salto tecnológico pode reforçar a sobrecarga que mantém milhões fora do emprego.

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Liderança e política mostram sub-representação persistente e o custo do backlash sobre quem se posiciona

A distância em espaços de poder também é visível. Com base em dados da ONU Mulheres, a especialista em oratória Fabiana Bertotti lembra que, em 1º de janeiro de 2025, mulheres ocupavam apenas 27,2% das cadeiras nos parlamentos nacionais. Para ela, a desigualdade não é aleatória, mas estrutural, pois restringe presença e influência ao longo do tempo.

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Fabiana aponta que o custo de se posicionar segue mais alto para elas. O fenômeno conhecido como backlash penaliza a firmeza feminina de um modo que não atinge os homens na mesma medida, moldando comportamentos e decisões de carreira. Treinar a voz e enfrentar o silenciamento, destaca, é um ativo profissional com efeitos financeiros concretos.

Educação na infância é alicerce para igualdade, projetos com autoria de crianças fortalecem referências

Para Vitor Azambuja, CEO e um dos idealizadores do De Criança Para Criança (DCPC), encarar o nó inicial passa por entender que 122 milhões de meninas estão fora da escola, conforme a ONU. O projeto propõe que crianças criem narrativas e animações de que elas mesmas sejam autoras, estimulando debates dentro da família, da comunidade e da sociedade.

Ao tratar de trajetórias como a de Malala Yousafzai, a iniciativa busca transformar referência em reflexão e ação cotidiana. Vitor sustenta que uma educação sólida desde cedo amplia a consciência sobre direitos e igualdade, preparando terreno para participação futura no trabalho e na liderança.

Nas empresas, gestos simbólicos perderam espaço e a mudança depende de cultura que valorize linguagem e escuta

No ambiente corporativo, a pós-doutora em Linguística Vivian Rio Stella, idealizadora da VRS Academy e participante do TEDxJundiaí, avalia que flores e frases motivacionais não respondem às tensões estruturais. Segundo ela, o problema central é que o mundo do trabalho foi desenhado historicamente sem considerar as mulheres, o que exige revisão profunda de regras e práticas.

Para avançar, Vivian defende deslocar a conversa do gesto para a cultura. Mulheres se realizam no trabalho não por agirem como homens, mas por trazerem perspectivas próprias, que precisam ser reconhecidas e integradas nas decisões. Para a especialista, conversa de qualidade é matéria-prima da cultura e deve orientar políticas, metas e liderança.

Caminhos práticos nas organizações incluem metas, promoção justa e desenho de processos

Especialistas apontam como prioridades estabelecer metas de diversidade com recorte de liderança, revisar critérios de promoção para reduzir vieses e redesenhar processos de trabalho. Medidas como transparência salarial, mentoria e flexibilidade que não penalize carreiras ajudam a enfrentar a sobrecarga e a falta de tempo que tiram mulheres do mercado.

Ao alinhar tecnologia, gestão e cuidado com a saúde, empresas podem mitigar o efeito da IA de intensificar tarefas e proteger empregos femininos mais expostos. Isso inclui mapear riscos de automação, ampliar capacitação e garantir participação feminina nas decisões sobre ferramentas digitais.

Queremos ouvir você. Na sua percepção, quais medidas mais urgentes podem reduzir a sobrecarga de cuidado e ampliar a presença feminina em tecnologia e liderança no Brasil? Deixe seu comentário e participe do debate.

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Sobre o Autor

Ana Paula Araújo
Ana Paula Araújo

Ana Paula Araújo escreve diariamente sobre o mercado de trabalho, mantendo os leitores informados sobre vagas de emprego e concursos públicos, especialmente nas modalidades Home Office e Híbridas.

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