Data centers de IA travam a rede nos EUA e Boom Supersonic aposta em turbina de 42 MW derivada de motor de avião para entregar 1,21 GW a partir de 2027
Uma turbina derivada de avião supersônico quer alimentar data centers famintos por energia nos desertos do oeste americano. O plano promete 42 MW constantes por unidade, entregas a partir de 2027 e menos dependência da rede elétrica. Segundo a Boom Supersonic, a solução nasce para ambientes quentes e secos, sem uso de água para resfriamento.
Gigantescos galpões de servidores crescem no oeste e sul dos Estados Unidos, puxados pela inteligência artificial e pela computação de alto desempenho. Ao mesmo tempo, redes elétricas sobrecarregadas e obras lentas dificultam novas conexões no ritmo exigido pelo mercado. Nesse vácuo, uma ideia ousada saiu do papel: adaptar tecnologia de motor de avião supersônico para virar usina dedicada a data centers.
A Boom Supersonic, conhecida pelo projeto do jato Overture, lançou o Superpower, uma turbina a gás de 42 megawatts desenhada para operar ao lado dos campi de servidores. O primeiro cliente é a americana Crusoe, que fechou a compra de 29 unidades, totalizando 1,21 gigawatt de potência contratada, por cerca de US$ 1,25 bilhão.
Veja também
O equipamento ainda está em fase de protótipo, porém apoiado em engenharia já validada na aviação. No coração do projeto está o núcleo do motor Symphony, redesenhado para uso estacionário, com foco em estabilidade, eficiência e manutenção contínua.
De acordo com a empresa, a turbina mantém 42 MW constantes mesmo sob 43 °C de temperatura ambiente e sem uso de água para resfriamento. Em data centers localizados em áreas áridas, isso reduz pressões sobre recursos hídricos e pode acelerar licenças locais.
Nos EUA, redes saturadas empurram data centers para geração local no próprio terreno com microcentrais behind the meter
Estados do sudoeste e do sul acumulam filas de conexão e obras de transmissão que levam anos para sair. Para não esperar, operadores de data centers recorrem a geração no próprio campus, em microcentrais behind the meter, solução que contorna gargalos da rede pública e dá previsibilidade de carga.
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), os data centers consumiram cerca de 460 TWh em 2024, volume próximo à demanda elétrica do Reino Unido, e esse número pode dobrar até 2027. Nesse cenário, projetos que entreguem potência firme perto do ponto de consumo ganham tração.
A proposta da Boom mira justamente esse nicho, especialmente em regiões quentes e secas onde a disponibilidade de água e a queda de desempenho em dias muito quentes costumam penalizar turbinas convencionais. A promessa de manter a potência nominal sem torres de resfriamento é um diferencial competitivo.
Contrato bilionário com a Crusoe, números e cronograma que balizam a aposta industrial
O acordo com a Crusoe prevê 29 turbinas Superpower, somando 1,21 GW instalados, por aproximadamente US$ 1,25 bilhão, de acordo com a Boom. A empresa trabalha para concluir o primeiro protótipo completo até o fim de 2026 e iniciar entregas em 2027.
Cada unidade entrega 42 MW e foi desenhada para despacho rápido no próprio campus do cliente, reduzindo dependência da expansão de rede. Em uma única instalação, a combinação de múltiplas turbinas pode ancorar parques de IA generativa e HPC com crescimento modular.
Desempenho e resfriamento sem água, como a turbina mantém 42 MW no calor e ainda gera dados para acelerar o Overture
Como funciona no calor extremo
Segundo a Boom, o núcleo de alta temperatura do motor Symphony foi adaptado para ciclos industriais, priorizando durabilidade e eficiência. O projeto foi pensado para manter potência máxima a 43 °C, enquanto turbinas convencionais podem perder até 30% em dias muito quentes.
Operar sem uso de água no resfriamento ataca um ponto sensível em polos de data centers em áreas sujeitas à seca. Além de aliviar a pegada hídrica, a solução tende a facilitar o diálogo com reguladores e comunidades, reduzindo infraestrutura auxiliar e custos operacionais.
Uma usina que também gera dados
A Superpower herda o monitoramento em tempo real comum na aviação e registra dados de desgaste, vibração e temperatura a cada hora de operação. Esses dados alimentam modelos de engenharia e simulações digitais, reforçando a confiabilidade do conjunto.
Ao monetizar a energia entregue aos clientes, a Boom financia o desenvolvimento do Overture e valida, na prática, componentes também usados em plataformas de teste como o XB-1. Essa retroalimentação técnico-industrial reduz riscos futuros de certificação e encurta ciclos de projeto.
Para data centers, o resultado prático é disponibilidade elétrica firme sem depender da rede, com telemetria detalhada que permite manutenção preditiva e planejamento de capacidade.
Fábrica e integração vertical, dinheiro novo e metas de escala até 2030
A Boom planeja uma “super fábrica” para produção seriada, com capacidade inicial de 2 GW por ano e possibilidade de expansão rápida para 4 GW anuais por volta de 2030. Equipamentos de produção já foram encomendados, em paralelo à montagem do protótipo da Superpower.
Para sustentar a virada energética, a empresa captou US$ 300 milhões com fundos como Darsana Capital, Altimeter, ARK Invest e Robinhood Ventures. O CEO Blake Scholl defende integração vertical de motor, turbina, linha de produção e cadeia de suprimentos para reduzir custos, prazos e incertezas.
Impacto ambiental e regulatório, benefícios imediatos e perguntas que ainda precisam de resposta
Embora mais ágil que esperar novas linhas de transmissão, a solução baseada em turbinas a gás traz o desafio das emissões. A Boom afirma mirar combustíveis de baixa emissão e sintéticos quando houver escala, mas a pegada de carbono dos data centers continuará sob escrutínio, com pressão por compensações, captura de CO₂ e integração a renováveis.
No campo regulatório, nem todo município aceita grandes turbinas próximas a áreas urbanas. Ruído, qualidade do ar, segurança e riscos industriais entram na mesa, o que torna locais desérticos e afastados mais prováveis para as primeiras implantações.
Para operadores, o ganho imediato é tempo. Implantar 42 MW por turbina no próprio campus reduz a dependência de obras longas e viabiliza a expansão da IA generativa e do HPC. A questão de fundo é como equilibrar velocidade, custo e clima na próxima onda de demanda elétrica.
Segundo a AIE, se a IA consolidar-se como um dos maiores consumidores globais de eletricidade até 2027, a discussão deixará de ser apenas técnica para se tornar também política e regulatória. A escolha das rotas de energia local moldará não só o setor de tecnologia, mas a transição energética como um todo.
Em última análise, a estratégia da Boom tenta capturar valor imediato, financiar o Overture e construir uma cadeia de suprimentos que sirva tanto à aviação quanto à energia distribuída. Se a execução acompanhar as metas, 2026 e 2027 serão anos de prova.
E você, considera turbinas a gás no quintal dos data centers uma solução ponte necessária ou um retrocesso climático disfarçado de eficiência? A promessa de 42 MW constantes sem água compensa as emissões no curto prazo? Deixe sua opinião nos comentários e conte que alternativa faria mais sentido para regiões quentes e redes saturadas. O debate sobre como alimentar a IA com responsabilidade está só começando.
Sobre o Autor
0 Comentários