Pólen abriga antibióticos naturais e pode salvar colmeias e lavouras, estudo nos EUA revela micróbios aliados e aponta saída sustentável à crise das abelhas

Abelha melífera coberta de pólen coletando em flor silvestre, simbolizando o microbioma protetor
Bactérias benéficas no pólen ajudam a defender colmeias e culturas agrícolas.
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Pesquisadores nos Estados Unidos identificaram bactérias no pólen capazes de frear doenças de abelhas e de plantas, oferecendo uma alternativa a antibióticos sintéticos. O achado sugere que a diversidade floral fortalece um microbioma protetor dentro das colmeias. A descoberta abre caminho para bioinsumos que protegem colônias e culturas agrícolas com menos impacto ambiental.

As abelhas melíferas enfrentam uma pressão constante de vírus, fungos, bactérias e parasitas, somando mais de trinta agentes patogênicos que ameaçam colônias e colheitas. Sem a polinização, culturas como maçã, café e amêndoas sofreriam quedas expressivas de produtividade, com efeitos diretos na segurança alimentar. Em meio ao avanço da resistência a antibióticos, a ciência voltou os olhos para um aliado discreto.

Segundo pesquisadores do Washington College e da Universidade de Wisconsin-Madison, o pólen não é apenas alimento. Ele abriga microrganismos endófitos, especialmente do gênero Streptomyces, que produzem antibióticos naturais capazes de inibir doenças de abelhas e patógenos agrícolas. A hipótese se confirmou em testes laboratoriais e análises químicas dos compostos produzidos por essas bactérias.

O impacto é duplo e promissor para a apicultura e a agricultura sustentável. Ao circular entre flores e colmeias, as abelhas transportam um consórcio de micróbios benéficos que, em ambientes mais diversos, tende a ser mais rico e funcional. Essa integração entre planta, pólen e abelha cria um escudo biológico difícil de replicar com insumos convencionais.

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Pesquisadores dos EUA apontam o pólen como banco natural de antibióticos

O estudo isolou 34 linhagens de actinobactérias a partir de pólen fresco coletado em flores e de pólen armazenado dentro de colmeias. Cerca de 72% dessas linhagens pertenciam ao gênero Streptomyces, conhecido pela indústria farmacêutica por gerar uma ampla variedade de moléculas antimicrobianas. De acordo com os autores, essas bactérias foram encontradas no ambiente floral, no corpo de abelhas forrageiras e no interior das colmeias, evidenciando um fluxo contínuo entre planta e inseto.

Esses microrganismos vivem nos tecidos vegetais e integram os grãos de pólen quando as plantas florescem. Uma vez levados para a colmeia, continuam ativos e seguem produzindo compostos bioativos, atuando como uma espécie de farmácia embutida no alimento das abelhas. Trata-se de uma relação tripla em que todos ganham: plantas fornecem alimento e bactérias, as bactérias defendem planta e abelha, e as abelhas espalham pólen e micróbios úteis pela paisagem.

Como o circuito planta pólen abelha se fecha

Segundo os pesquisadores, o sequenciamento genômico das bactérias isoladas confirmou um perfil típico de endófitos vegetais e indícios de capacidade de síntese de moléculas antimicrobianas. A diversidade bacteriana do pólen acompanhou a diversidade de plantas no entorno.

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Em áreas com muitas espécies florais, o microbioma do pólen mostrou-se mais robusto. Já em extensas monoculturas, essa riqueza caiu, reduzindo a chance de incluir bactérias-chave contra doenças críticas tanto das crias de abelhas quanto de culturas de alto valor econômico.

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O que os testes mostraram sobre doenças de abelhas e plantas

Para medir o potencial de controle biológico, os cientistas colocaram linhagens de Streptomyces para interagir com seis patógenos relevantes. Entre os que atacam abelhas estavam Aspergillus niger (ligado à stonebrood), Paenibacillus larvae (loque americana) e Serratia marcescens. Entre os que afetam plantas, testaram Erwinia amylovora (requeima bacteriana em frutíferas como a macieira), Pseudomonas syringae e Ralstonia solanacearum (murchamento bacteriano em solanáceas como tomate e batata).

Quase todas as linhagens conseguiram inibir de forma marcante o crescimento de A. niger em placas de cultura. Como esse fungo acomete principalmente as larvas, qualquer redução da sua atividade já eleva a sobrevivência da próxima geração de abelhas, reforçando a resiliência das colmeias ao longo das estações.

Houve também ação moderada a forte contra P. larvae, um dos maiores temores da apicultura por causar a loque americana. Em surtos severos, apicultores muitas vezes recorrem a medidas drásticas, como queimar quadros e colmeias inteiras, para evitar contaminações em cascata. Uma ferramenta biológica que reduza essa pressão tem valor imediato para o manejo sanitário.

Nos testes com patógenos de plantas, as bactérias do pólen bloquearam o crescimento de agentes que provocam queimaduras, podridões e murchas severas. Em culturas como maçã, tomate e batata, isso se traduz em ganhos de produtividade e menor perda pós-colheita, com efeitos econômicos diretos para produtores.

O desempenho amplo sugere que o microbioma do pólen pode funcionar como um escudo natural tanto dentro da colmeia quanto no campo, reduzindo a dependência de defensivos químicos e contribuindo para sistemas de produção mais resilientes.

As moléculas bioativas que explicam o efeito protetor e seu potencial

A análise química revelou um coquetel de compostos produzidos pelos microrganismos, incluindo PoTeMs (macrolactamas policíclicas), surugamidas (peptídeos cíclicos), loboforinas e sideróforos como a desferrioxamina. Em conjunto, formam um arsenal antimicrobiano com diferentes modos de ação.

Segundo os autores, essas moléculas combinam amplo espectro, boa estabilidade e baixa toxicidade para organismos que não são alvo. Em outras palavras, atacam patógenos preservando o entorno biológico, algo raro em soluções de síntese química de uso amplo.

Essa versatilidade ajuda a explicar por que o pólen pode atuar como um banco natural de antibióticos, constantemente reabastecido a cada visita das abelhas às flores. Ao mesmo tempo, estimula a busca por linhagens específicas que maximizem o efeito protetor em diferentes cenários agrícolas.

Com a triagem adequada, é possível selecionar cepas que equilibrem potência, segurança e compatibilidade ecológica, criando um caminho sólido para bioinsumos eficazes e escaláveis.

Caminhos práticos para apicultura e agricultura sustentáveis

Hoje, muitos apicultores ainda utilizam antibióticos como oxitetraciclina e tilosina para conter doenças bacterianas das crias. O uso repetido, porém, pode desbalancear o intestino das abelhas, deixar resíduos em cera e mel e favorecer linhagens resistentes; há registros de P. larvae com menor sensibilidade à oxitetraciclina, segundo os pesquisadores.

Como alternativa, os autores propõem inocular bactérias benéficas na colmeia por meio de pólen suplementar, pastas proteicas ou outras formulações, reforçando a “imunidade microbiana” das colônias. A mesma lógica pode se estender às lavouras, com bactérias derivadas do pólen atuando como bioinsumos contra murchas, podridões e queimaduras bacterianas.

Essa abordagem se alinha à ecologia das abelhas e reduz a dependência de defensivos sintéticos, aproximando o manejo sanitário da colmeia e da lavoura de práticas realmente sustentáveis. Além disso, cria oportunidades locais de seleção de cepas adaptadas a cada bioma.

Diversidade floral na paisagem rural como política de saúde das colmeias

De acordo com o estudo, paisagens com grande variedade de flores alimentam um microbioma do pólen mais diverso e funcional, elevando a chance de incluir bactérias que bloqueiam doenças graves. Em contrapartida, monoculturas extensas empobrecem esse repertório microbiano e podem fragilizar colmeias e culturas vizinhas.

Promover corredores florais, rotação de culturas e áreas de vegetação nativa tende a fortalecer o circuito planta–pólen–abelha. Em escala de política pública, biodiversidade floral pode ser tratada como saúde preventiva para colmeias e lavouras, reduzindo custos com perdas e tratamentos químicos no médio prazo.

Qual a melhor rota para proteger abelhas e colheitas, apostar em microbiomas do pólen ou manter antibióticos de síntese no manejo? A diversidade floral deve ser prioridade mesmo onde a produtividade pressiona por monoculturas? Deixe sua opinião nos comentários e conte se práticas locais de apicultura e agricultura já integram soluções biológicas. O debate ajuda a iluminar caminhos viáveis para unir produção e conservação.

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Sobre o Autor

Geovane Souza
Geovane Souza

Especialista em criação de conteúdo para internet, SEO e marketing digital, com atuação focada em crescimento orgânico, performance editorial e estratégias de distribuição. No blog, cobre temas como empregos, economia, vagas home office, cursos e qualificação profissional, tecnologia, entre outros, sempre com linguagem clara e orientação prática para o leitor. Universitário de Sistemas de Informação no IFBA – Campus Vitória da Conquista. Se você tiver alguma dúvida, quiser corrigir uma informação ou sugerir pauta relacionada aos temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: gspublikar@gmail.com. Importante: não recebemos currículos.

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