Colosso de granito escondido sob o glaciar Pine Island, com 100 km por 7 km, muda a leitura do gelo antártico e pode redefinir projeções de nível do mar

Aeronave do British Antarctic Survey sobrevoando o glaciar Pine Island na Antártida Ocidental, onde foi identificado um maciço granítico subglacial
Sobrevoos gravimétricos identificaram um maciço de granito sob o gelo do Pine Island.
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Uma anomalia de gravidade na Antártida Ocidental revelou um maciço de granito enterrado sob o glaciar Pine Island. A estrutura, comparável a um Mont Blanc invertido, tem cerca de 100 km de extensão e 7 km de espessura. Pesquisadores indicam efeitos diretos no fluxo do gelo e nas projeções de elevação do nível do mar.

Uma missão aérea de pesquisa sobre o gelo antártico encontrou um sinal inesperado e silencioso nas medições. A anomalia de gravidade, detectada por aeronaves do British Antarctic Survey, apontou para um corpo rochoso gigantesco escondido sob a Antártida Ocidental. Cruzando esses dados com rochas coletadas em campo, a equipe caracterizou um maciço de granito com cerca de 100 quilômetros por 7 quilômetros de espessura, soterrado sob o glaciar Pine Island.

Segundo o British Antarctic Survey, pequenas variações na massa da crosta terrestre alteram de forma sutil a trajetória do avião, e sensores gravimétricos registram esse “puxão” quase imperceptível. Ao comparar o mapa da anomalia com a presença de granito rosa nas montanhas Hudson, o quebra-cabeça geológico ganhou forma. A composição e a idade das amostras coincidiram com o corpo enterrado.

A descoberta tem peso prático. O Pine Island é um dos glaciares que mais perdem massa na região e drenam gelo para o oceano Amundsen. Entender a geologia de base ajuda a estimar se o fluxo do gelo vai acelerar, estabilizar ou recuar, com impacto direto nas projeções de nível do mar nas próximas décadas.

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Como a anomalia gravimétrica levou ao mapa de uma montanha invertida sob o gelo

As aeronaves do British Antarctic Survey realizam levantamentos gravimétricos de alta precisão sobre a Antártida. Variações mínimas na gravidade indicam diferenças de densidade no subsolo, revelando volumes rochosos enterrados que não aparecem em imagens ópticas ou de radar convencionais.

Os modelos gerados a partir desses dados mostraram uma massa densa e contínua sob o Pine Island, compatível com um grande corpo granítico. Essa “montanha ao avesso”, totalmente encoberta por gelo, atua como obstáculo basal, interferindo na velocidade do fluxo glacial e na drenagem da água de derretimento.

As pistas do granito rosa nas montanhas Hudson e o que revelam sobre o Jurássico

Por décadas, blocos de granito rosa isolados nas montanhas Hudson intrigaram geólogos por destoarem do cenário vulcânico local. Essas rochas estavam em pontos altos, longe de qualquer continuidade evidente com estruturas vizinhas, sugerindo transporte por gelo.

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Em laboratório, cristais microscópicos como zircões revelaram idades próximas de 175 milhões de anos, no Jurássico, quando a Antártida integrava o supercontinente Gondwana. A assinatura química dessas amostras bateu com a de um maciço granítico enterrado na mesma região.

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Segundo os pesquisadores, a concordância entre idade, composição e posição geográfica indica que os blocos foram arrancados do corpo subglacial e transportados pelo gelo até os topos das montanhas. Cada fragmento funciona como uma cápsula do tempo, registrando rotas e ritmos do antigo fluxo glacial.

Esse cruzamento de evidências amarra a história tectônica regional a processos recentes de erosão e transporte glacial, oferecendo um elo material entre a rocha enterrada e os blocos expostos em altitude.

Glaciares como escavadeiras, o transporte de blocos erráticos e o último máximo glacial

Glaciares fluem como rios sólidos, desgastando a rocha de base por erosão glacial. No passado recente, durante o último máximo glacial, há cerca de 20 mil anos, o Pine Island era mais espesso e raspava diretamente o topo do maciço de granito, arrancando pedaços incorporados à massa de gelo.

À medida que o clima aqueceu e o glaciar recuou, esses blocos foram sendo deixados para trás em cristas e cumes. São os chamados erráticos glaciares, rochas que não combinam com o substrato local e denunciam a origem distante.

Esses materiais indicam não apenas de onde vieram, mas também como o gelo avançou e recuou, ajudando a reconstruir a cronologia de erosão, transporte e deposição que moldou vales e bacias subglaciais.

Por que a geologia de base muda o futuro do nível do mar e das cidades

O glaciar Pine Island é um dos mais monitorados e críticos para a Antártida Ocidental por seu papel no escoamento de gelo ao oceano Amundsen. A presença de um maciço granítico sob sua base adiciona rugosidade e atrito, o que pode frear o fluxo em certos setores e redirecionar canais de água de derretimento.

Regiões de base lisa, recobertas por sedimentos, favorecem o deslizamento rápido quando lubrificadas por água. Já áreas montanhosas tendem a ancorar o gelo, criando zonas de retenção. Localizar e caracterizar essas estruturas é crucial para reduzir incertezas em modelos de evolução glacial.

Segundo o British Antarctic Survey, incorporar a forma e o tipo de rocha da base nos modelos numéricos é decisivo para projetar a contribuição antártica ao nível do mar. Sem essa base física, previsões trazem faixas de erro mais amplas.

Em cenários de aquecimento oceânico e atmosférico, a dinâmica do Pine Island influencia diretamente riscos costeiros. Caso o fluxo acelere, metrópoles baixas podem enfrentar elevação do mar superior a um metro até o fim do século, agravada por tempestades e marés extremas.

Ao refinar a geologia oculta, a nova descoberta ajuda a ajustar políticas públicas, obras de contenção, seguros e planejamento urbano, sobretudo em deltas e ilhas densamente povoadas.

A investigação que une aviões algoritmos e cristais em um mesmo mapa

O trabalho integra geofísica e geologia: dados de gravidade e magnetismo obtidos por aeronaves alimentam modelos 3D que estimam volumes e densidades anômalas. Em paralelo, a datação radiométrica de zircões nos blocos erráticos revela idade e história térmica da rocha original.

De acordo com o British Antarctic Survey, só ao combinar medições aéreas, análises laboratoriais e modelagem numérica é possível montar o mapa invisível da Antártida enterrada, conectando batólitos graníticos, cadeias exumadas e vales ocultos sob quilômetros de gelo.

Conceitos essenciais para entender a descoberta e acompanhar novos cenários

Erosão glacial

Processo em que o gelo em movimento desgasta e escava a rocha de base, incorporando fragmentos que funcionam como uma lixa gigante. Ao longo do tempo, esculpe vales em U, fiordes e bacias profundas.

Errático glacial

Bloco de rocha transportado por gelo até locais onde o tipo litológico não combina com o substrato. Por serem “estranhos” ao ambiente, marcam rotas e alcances do transporte glacial.

O que vem a seguir nos modelos com o novo maciço granítico

Com o maciço incluído, pesquisadores testam cenários de aquecimento do oceano e da atmosfera para medir o efeito da rugosidade basal no afinamento do Pine Island. Em algumas simulações, a topografia mais alta retarda o escoamento por um período, mas mudanças térmicas podem contornar essa barreira.

Os próximos passos envolvem integrar dados adicionais de radar de penetração no gelo e sísmica rasa para refinar a geometria do corpo rochoso. Essa calibração aumenta a confiança das projeções e diminui as incertezas associadas às respostas do manto de gelo.

O objetivo é transformar o que antes era um “ponto cego” do subsolo em um parâmetro físico bem definido, melhorando a qualidade das previsões globais de elevação do nível do mar.

E agora, a presença desse “Mont Blanc invertido” sob o Pine Island é âncora que ajuda ou armadilha que pode desestabilizar o fluxo ao desviar a água de derretimento? Deixe sua opinião nos comentários e diga se a descoberta muda a forma como políticas públicas e seguros devem encarar o risco costeiro. O debate sobre o peso da geologia na crise climática está aberto.

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Sobre o Autor

Geovane Souza
Geovane Souza

Especialista em criação de conteúdo para internet, SEO e marketing digital, com atuação focada em crescimento orgânico, performance editorial e estratégias de distribuição. No blog, cobre temas como empregos, economia, vagas home office, cursos e qualificação profissional, tecnologia, entre outros, sempre com linguagem clara e orientação prática para o leitor. Universitário de Sistemas de Informação no IFBA – Campus Vitória da Conquista. Se você tiver alguma dúvida, quiser corrigir uma informação ou sugerir pauta relacionada aos temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: gspublikar@gmail.com. Importante: não recebemos currículos.

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