Estudo da CNC projeta impacto bilionário do fim da escala 6×1 no setor de serviços com alta de preços, queda de empregos e pressão sobre comércio e turismo
CNC projeta custo anual de R$ 235,8 bilhões com o fim da escala 6×1, com reflexos em preços, empregos e produção do setor de serviços
O setor de serviços pode ter um custo adicional de R$ 235,8 bilhões por ano se a escala 6×1 for extinta, aponta estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O levantamento foi divulgado em 23 de fevereiro de 2026, em Brasília (DF), pelo economista-chefe Fábio Bentes.
De acordo com a CNC, o comércio concentraria um impacto de R$ 122,4 bilhões, enquanto o turismo teria efeito estimado em R$ 10,9 bilhões. A entidade prevê alta de preços, efeitos negativos sobre o emprego e recuo na produção dos setores.
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Os resultados foram apresentados no painel Jornada de trabalho e estabilidade do ambiente de negócios, na sede da CNC. O tema ganha força no Congresso com a tramitação de uma PEC na Câmara dos Deputados para encerrar a jornada 6×1.
As informações foram apuradas e publicadas pelo Valor Econômico, que acompanhou o evento e ouviu representantes da confederação. A CNC informou que vai enviar o estudo aos parlamentares para subsidiar o debate.
Impacto direto no setor de serviços, comércio e turismo segundo a CNC
O estudo dimensiona que a mudança na jornada exigiria reforço imediato de quadros ou pagamento adicional de horas, elevando custos operacionais. Para a CNC, os segmentos com maior intensidade de mão de obra, como o comércio varejista e parte dos serviços presenciais, seriam os mais pressionados.
No turismo, a confederação ressalta que a atividade é majoritariamente non-tradable, ou seja, não há como importar serviços para aliviar gargalos de oferta. Esse caráter local tornaria o ajuste mais sensível e com menos alternativas para diluir custos no curto prazo.
Segundo a CNC, a magnitude do impacto setorial reforça a necessidade de calibragem por atividade econômica. Sem isso, redes de varejo, bares, restaurantes, hotéis e serviços de atendimento contínuo tenderiam a ajustes mais bruscos em escala, preço e operação.
Pressão sobre preços e folha de pagamento no comércio, efeito estimado nos repasses
De acordo com Fábio Bentes, cada 1% de aumento real na folha do comércio tende a elevar os preços médios em 0,6%. No cenário conservador traçado pela CNC, uma alta de 21% na folha implicaria avanço de aproximadamente 13% nos preços setoriais.
Para o economista, sem flexibilização mínima nas negociações salariais, o custo se tornaria automático e disseminado. Setores mais intensivos em trabalho seriam proporcionalmente mais afetados, o que poderia acelerar repasses, reduzir margens e encurtar dias ou horários de funcionamento.
Empregos em risco, informalidade e automação no radar com possível corte de vagas
A CNC projeta uma possível redução de 631 mil empregos formais no curto e médio prazos diante do choque de custos. Em situações desse tipo, empresas ajustam quadro, revisam turnos e aceleram reconfigurações operacionais para preservar caixa.
Bentes afirmou que o comércio dificilmente absorveria aumento dessa magnitude sem alternativas como repassar preços, reduzir margens ou cortar postos de trabalho. A pressão sobre o ponto de equilíbrio levaria gestores a priorizar produtividade e reduzir exposição a custos fixos.
A diretora de Relações Institucionais da CNC, Nara de Deus Vieira, avaliou que o Congresso ainda não dimensionou plenamente o impacto da proposta. Segundo ela, o debate ganhou tração por razões eleitorais e tende a se aprofundar à medida que os números forem compreendidos.
Nara alertou para possíveis efeitos colaterais sobre informalidade e automação, com risco de aumento do desemprego se as empresas não suportarem o choque. A entidade pretende compartilhar o estudo com parlamentares para embasar cenários e alternativas de transição.
Para a diretora, o calendário é apertado para amadurecer uma solução consistente e consciente. Ela defende que a discussão avance com dados, simulações e avaliação de impactos por setor, evitando decisões uniformes que desconsiderem especificidades.
Tramitação na Câmara dos Deputados, relator cotado e posição do governo
Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o deputado Paulo Azi (União-BA) deve ser anunciado relator da PEC que propõe o fim da escala 6×1, segundo apuração do Valor Econômico. A expectativa de lideranças do Congresso e do Executivo é que o tema avance ainda em 2026, em meio ao calendário eleitoral.
O governo, sob liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, defende encerrar a jornada 6×1 e reduzir a carga semanal de 44 para 40 horas sem perda de remuneração. Em resposta, frentes parlamentares ligadas ao setor produtivo articulam adiar a discussão para depois das eleições, alegando necessidade de análise mais profunda.
Resultados das empresas e risco macroeconômico, impacto no EOB e no PIB
Em termos agregados, a CNC estima queda de 5,7% no Excedente Operacional Bruto (EOB) do comércio, com perda projetada de R$ 73,31 bilhões. O valor supera em mais de R$ 2 bilhões todo o faturamento do varejo no Natal de 2024, segundo a própria confederação.
Especialistas e economistas citados pelo Valor alertam para potenciais efeitos negativos sobre produtividade e Produto Interno Bruto (PIB), caso o ajuste ocorra sem mecanismos de transição. A combinação de custo maior, preços mais altos e ajuste de quadro pode reduzir dinamismo e investimentos.
Para a CNC, políticas uniformes tendem a gerar efeitos assimétricos entre atividades e regiões. Medidas graduais e calibradas por setor poderiam mitigar choques e preservar competitividade durante a adaptação.
Negociação coletiva e regras setoriais, alertas de especialistas da CNC
O advogado Roberto Lopes, especialista da CNC, manifestou preocupação com uma regra única para todos os setores, sem considerar características do mercado de trabalho. Para ele, o avanço da PEC representa retrocesso ao retirar peso da negociação coletiva entre sindicatos.
Lopes destacou que a CNC é favorável à redução da jornada, mas defende que seja feita por acordo coletivo, não de forma impositiva. A via negocial permitiria adaptar escalas, compensações e custos conforme a realidade de cada segmento.
O que você pensa sobre a proposta de fim da escala 6×1 e seus impactos no emprego, nos preços e na competitividade do setor de serviços? Deixe seu comentário e conte se a redução para 40 horas semanais deveria ocorrer por PEC ampla ou por negociação coletiva setorial. Sua opinião ajuda a enriquecer o debate público com experiências e visões diferentes.
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