Holanda avança de forma discreta na semana de quatro dias com 32 horas e sem corte salarial enquanto economistas da OCDE cobram ganhos de produtividade
Holanda consolida semana de quatro dias com 32 horas, sem corte salarial, e abre debate sobre produtividade
A Holanda vem ampliando, de maneira silenciosa, a adoção da semana de quatro dias com manutenção de salários. De acordo com reportagem do g1 publicada em 18/02/2026, empresas holandesas têm reduzido a carga para 32 horas semanais sem exigir compensações.
Companhias que já seguiram esse caminho relatam queda nas licenças médicas e aumento na retenção de talentos. O movimento ganhou força mesmo em setores competitivos, sinalizando uma mudança cultural no mercado de trabalho.
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O país combina a menor carga horária média da União Europeia, 32,1 horas por semana, contra a média do bloco de 36 horas, com um dos PIBs per capita mais altos da Europa. O dado desafia a ideia de que jornadas longas são condição para alto desempenho econômico.
Ao mesmo tempo, economistas da OCDE alertam para a estagnação da produtividade nos últimos 15 anos e colocam em dúvida a sustentabilidade de longo prazo desse arranjo. O debate opõe qualidade de vida e dinamismo econômico.
Empresas adotam 32 horas sem redução de salário
Em Amsterdã, a Positivity Branding, fundada por Gavin Arm e Bert de Wit, reduziu a jornada para quatro dias em 2019. No bairro De Pijp, a equipe trabalha oito horas por dia, totalizando 32 horas semanais, sem corte salarial, priorizando o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
Arm defende que tempo com a família é insubstituível, enquanto De Wit sustenta que o foco é trabalhar de forma mais inteligente, não mais intensa. Para eles, a mudança depende de cultura e critérios claros de priorização.
Segundo o g1, o modelo já é comum no país e alcança inclusive grandes companhias. O sindicato FNV pressiona por uma diretriz oficial, e os trabalhadores têm direito legal de solicitar redução de jornada.
Benefícios relatados por RH e sindicatos
Na empresa de software Nmbrs, a diretora de gestão de pessoas Marieke Pepers tira todas as sextas-feiras de folga. Ela relata que o descanso amplia a inspiração e traz resultados melhores para a companhia.
Segundo Pepers, após a adoção da semana de quatro dias, as licenças médicas caíram e a retenção de profissionais subiu. Houve resistência inicial de investidores e funcionários, superada com menos reuniões e foco no que realmente importa.
Produtividade, PIB e as dúvidas dos economistas
Para Daniela Glocker, economista responsável pela Holanda na OCDE, o país combina alta produtividade com menos horas, mas o ganho de eficiência não avançou nos últimos 15 anos. A preocupação é manter a qualidade de vida sem perder tração econômica.
Glocker afirma que o futuro exige elevar a produtividade ou ampliar a oferta de trabalho. Isso pode significar produzir mais bens e serviços por dia ou aumentar o número de pessoas na força de trabalho, inclusive com imigração.
A Holanda tem a maior proporção de trabalhadores em tempo parcial entre os países da OCDE, com quase metade dos empregados abaixo da jornada integral. Esse padrão reduz a disponibilidade total de horas trabalhadas.
Salários relativamente altos e a tributação sobre a faixa intermediária tornam pouco atraente fazer horas extras. Muitas famílias preferem abrir mão de renda para ganhar tempo livre.
Uma análise do governo mostra que 3 em cada 4 mulheres e 1 em cada 4 homens trabalham menos de 35 horas por semana. O dado ajuda a explicar a oferta de mão de obra comprimida.
Mulheres, tempo parcial e barreiras culturais
Apesar da alta taxa de emprego feminino, mais da metade das mulheres na Holanda atua em regime parcial, cerca de três vezes a média da OCDE. Para Peter Hein van Mulligen, do CBS (escritório de estatísticas), há um conservadorismo institucionalizado que limita jornadas integrais.
O acesso a creches a preços acessíveis é apontado como entrave relevante. Além disso, a carga tributária e a complexidade dos benefícios desestimulam o aumento de horas, sobretudo entre os segundos provedores de renda.
Um estudo de 2024 indica que 1 em cada 3 holandeses crê que mães com filhos de até três anos não deveriam trabalhar mais que um dia por semana, e quase 80% consideram três dias o máximo. Tais visões impactam escolhas de jornada e participação.
O que pode sustentar a semana de quatro dias
Para Nicolas Gonne, da OCDE, há um limite para o que a economia pode fazer com poucos trabalhadores, sobretudo com o envelhecimento da população. Expandir a oferta de trabalho é peça-chave para aliviar pressões.
No plano micro, companhias relatam ganhos ao reduzir reuniões e afiar prioridades, como descreveu Pepers na Nmbrs. Sindicatos defendem que um dia a menos renova energia, eleva a produtividade e mantém pessoas ativas no mercado.
Segundo a OCDE, a perenidade do modelo exigirá ganhos de eficiência e/ou mais participação na força de trabalho. Políticas para creches acessíveis e ajustes tributários podem incentivar mais mulheres em tempo integral.
A experiência holandesa confronta a tese de que só jornadas longas entregam riqueza. O próximo capítulo dependerá de produtividade, inclusão e de escolhas sobre como organizar o trabalho.
O que você acha da semana de quatro dias com 32 horas e sem corte salarial, funcionaria no Brasil com ganhos reais de produtividade? Quais barreiras e políticas seriam decisivas para viabilizar o modelo no seu setor? Deixe seu comentário e participe do debate.
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