Inflação do Japão desacelera ao menor nível em dois anos, pressiona o iene e expõe dilema do Bank of Japan sobre quando elevar os juros
Desinflação ganha força no Japão, mas núcleo resiliente mantém a política monetária no centro do debate
A inflação do Japão perdeu fôlego em janeiro e atingiu o menor ritmo em dois anos, intensificando o desafio de comunicação do Bank of Japan (BOJ) sobre o timing de uma nova alta de juros. Segundo o Ministério de Assuntos Internos e Comunicações, o índice de preços ao consumidor excluindo alimentos frescos avançou 2% na comparação anual, em linha com as projeções de mercado.
Ao mesmo tempo, o núcleo que também exclui energia subiu 2,6%, superando a meta oficial de 2% e sugerindo que as pressões subjacentes ainda não cederam por completo. A inflação cheia desacelerou para 1,5%, ficando abaixo de 2% pela primeira vez desde março de 2022, um marco relevante na trajetória recente de preços.
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Após a divulgação, o iene enfraqueceu e foi negociado perto de 155,20 por dólar, ante 154,98 antes dos dados, refletindo dúvidas sobre a velocidade de normalização monetária. A reação do câmbio reforça a leitura de que o recuo na inflação pode adiar apostas mais agressivas para juros, mesmo com o núcleo persistente.
De acordo com informações publicadas pela Bloomberg e reproduzidas pelo InfoMoney, o BOJ já antecipava uma desaceleração temporária devido a subsídios e efeitos de base. Ainda assim, parte dos economistas projeta uma nova alta já em abril, caso o quadro de inflação subjacente e salários confirme sustentação.
O que os números do índice de preços mostram
As políticas de alívio ao custo de vida ganharam tração. Medidas do governo para reduzir preços de combustíveis derrubaram a energia em 5,2% em janeiro, contribuindo para o arrefecimento do índice cheio. Segundo a Bloomberg citada pelo InfoMoney, essas ações integram o pacote econômico da premiê Sanae Takaichi para mitigar pressões sobre famílias e empresas.
Nos alimentos, a alta também perdeu força. Os preços de alimentos excluindo itens frescos avançaram 6,2%, o menor ritmo desde março do ano passado, influenciados por uma base de comparação elevada. O arroz, que havia disparado 101,7% em maio do ano anterior, subiu 27,9% em janeiro, em clara trajetória de desaceleração.
Política pública e custo de vida em alta
O encarecimento dos alimentos virou tema central do debate político. A parcela da renda familiar destinada à alimentação atingiu o maior nível em 44 anos, quadro que se intensificou após derrotas eleitorais do Partido Liberal Democrata e que antecedeu a chegada de Sanae Takaichi ao poder, segundo a Bloomberg. Em resposta, a premiê prometeu suspender o imposto sobre vendas de alimentos por dois anos.
Em 2025, a inflação excluindo alimentos frescos ficou em 3,1%, marcando o quarto ano consecutivo acima de 2%. O dado sinaliza que, apesar do alívio recente, a dinâmica de preços segue mais pressionada do que no passado recente do país.
O pano de fundo de atividade segue frágil. A economia japonesa cresceu 0,1% no último trimestre de 2025, com o consumo privado também em 0,1%, abaixo do esperado, conforme a Bloomberg. Esse quadro limita repasses de preços e reforça a importância do diagnóstico do BOJ sobre a persistência da inflação.
O que o Bank of Japan sinaliza para os juros
Apesar do arrefecimento do índice cheio, o BOJ mantém o foco na inflação subjacente e nos salários, de acordo com a cobertura da Bloomberg reproduzida pelo InfoMoney. A leitura oficial é que a desaceleração atual reflete subsídios e efeitos de base, e não necessariamente perda de tração da tendência de médio prazo.
Os preços de serviços, um termômetro da sustentabilidade inflacionária, subiram 1,4% em um ano. Alguns economistas veem espaço para uma alta de juros já em abril, especialmente se os acordos salariais confirmarem custos trabalhistas mais altos e mantiverem o núcleo de inflação acima da meta de 2%.
Câmbio do iene e leitura para os mercados
O movimento do câmbio foi imediato após os dados. O iene recuou para cerca de 155,20 por dólar, refletindo a percepção de que o BOJ pode agir com cautela enquanto a inflação cheia cai e o impacto dos subsídios ao setor de energia persiste.
Para investidores, a mensagem é ambígua. O índice cheio em 1,5% sugere descompressão relevante, mas o núcleo em 2,6% mantém aceso o debate sobre a necessidade de normalização adicional. O resultado é um câmbio mais sensível a sinais de política e a novos indicadores de preços e salários.
Esse equilíbrio fino coloca a comunicação do BOJ sob escrutínio. Elevar juros com a inflação cheia abaixo de 2% pode parecer contraintuitivo, mas a autoridade monetária observa a trajetória do núcleo e a dinâmica salarial para garantir que a meta seja atingida de forma duradoura.
Segundo economistas citados pela Bloomberg, a próxima janela relevante pode ser a de abril, quando novas leituras de preços e negociações trabalhistas ajudarão a calibrar a trajetória. A consistência de serviços e salários será decisiva para definir o ritmo de aperto.
No curto prazo, o mercado deve oscilar entre sinais de enfraquecimento da inflação e a resiliência do núcleo. A direção do iene seguirá sensível a qualquer indício de mudança no tom do BOJ e à evolução das medidas fiscais anunciadas por Sanae Takaichi.
O que você acha da estratégia do Bank of Japan (BOJ) neste cenário de inflação cheia em 1,5% e núcleo em 2,6%? Faz sentido subir juros já em abril com atividade a 0,1% no fim de 2025 e o iene perto de 155,20 por dólar? Deixe seu comentário e participe do debate sobre o caminho da política monetária japonesa.
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