Envelhecimento da população e economia do cuidado, o tema importante do qual quase não se fala e que vai mexer com empregos, salários e Previdência nos próximos anos
Envelhecimento populacional e economia do cuidado entram no centro da agenda do trabalho. O tema pressiona empregos, salários e contas públicas.
O Brasil está envelhecendo rápido, e isso vai mudar o mercado de trabalho, a Previdência Social e a política salarial. Apesar do impacto potencial, esse “assunto estrutural” segue fora do debate cotidiano sobre emprego e renda. A combinação de baixa natalidade e aumento de longevidade exige respostas agora.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, a população com 65 anos ou mais chegou a cerca de 10,9% do total, um salto em pouco mais de uma década. A fecundidade está abaixo do nível de reposição há anos, o que reduz a base de jovens que entram no mercado.
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Esse quadro pressiona a produtividade e as contas públicas em um país que ainda convive com alta informalidade. De acordo com análises do Ipea, a chamada “janela demográfica” brasileira está se fechando ao longo desta década, reduzindo o bônus de uma força de trabalho majoritariamente jovem.
Especialistas do Banco Mundial e da OIT alertam que sociedades que envelhecem precisam elevar a produtividade, organizar a economia do cuidado e requalificar trabalhadores maduros. A alternativa é enfrentar escassez de mão de obra em setores críticos, queda do crescimento potencial e maior disputa por recursos públicos.
O que os dados já mostram no Brasil
O Censo 2022 do IBGE confirma a tendência de envelhecimento populacional e o arrefecimento do crescimento demográfico. O país tem menos nascimentos, pessoas vivendo mais e mudanças na estrutura etária que alteram o tamanho relativo da população em idade ativa.
Ao mesmo tempo, a participação feminina no mercado segue limitada por barreiras de cuidado. Pesquisas do IBGE e do Ipea mostram que as mulheres dedicam quase o dobro de horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados não remunerados em relação aos homens, o que freia a oferta de trabalho e a renda familiar.
Impactos no mercado de trabalho, salários e produtividade
Com menos jovens chegando e mais pessoas idosas, vários setores podem enfrentar escassez de profissionais, do cuidado em saúde e assistência à tecnologia e construção. A OIT tem registrado, no pós-pandemia, gargalos de mão de obra em áreas essenciais em diversos países, o que pressiona salários e custos.
Para o Brasil, a conta inclui ainda produtividade estagnada. Sem ganhos de eficiência e requalificação profissional contínua, a economia tende a crescer menos. O envelhecimento também afeta a Previdência Social, exigindo equilíbrio entre tempo de contribuição, idade mínima e inclusão de trabalhadores hoje informais.
Caminhos possíveis, do cuidado à imigração qualificada
Uma resposta de alto impacto é investir na economia do cuidado, ampliando creches, educação infantil em tempo integral e serviços de longa permanência para idosos. Segundo o Banco Mundial, países que organizaram o cuidado elevaram a participação feminina e criaram empregos de qualidade nesse setor.
A requalificação de trabalhadores 50+ precisa sair do papel. Programas desenhados para carreiras de transição, com foco em habilidades digitais, saúde, gestão e manutenção industrial, ajudam a reter experiência e evitar desemprego de longa duração entre mais velhos.
A automação pode ser aliada, não inimiga. Ao substituir tarefas repetitivas, libera pessoas para funções de maior valor, desde que empresas e governos apoiem o upskilling e o reskilling. Esse movimento sustenta ganhos de produtividade, condição central em sociedades que envelhecem.
A imigração qualificada, planejada e transparente, também compõe a estratégia em países com queda da fecundidade. Experiências internacionais, citadas por estudos do Banco Mundial, mostram que políticas migratórias bem calibradas ajudam a suprir carências setoriais sem pressionar a coesão social.
Por fim, o combate ao etarismo no trabalho é urgente. Avaliações por competência, metas e aprendizagem contínua devem substituir vieses etários em contratações e promoções, mantendo a força de trabalho engajada e produtiva.
O que governos e empresas podem fazer agora
Governos podem priorizar um plano nacional de cuidado, com financiamento estável para creches e serviços a idosos, e integrar políticas de trabalho, educação e saúde. A Reforma da Previdência de 2019 ajustou regras, mas a sustentabilidade futura dependerá de mais formalização e produtividade.
Empresas devem adotar gestão por habilidades, trilhas de requalificação, flexibilidade para cuidadores e modelos intergeracionais de times. Incentivos à aprendizagem contínua e metas de diversidade etária ajudam a fechar lacunas de competências e a reduzir a rotatividade.
O debate que falta no noticiário econômico
O foco diário em inflação, juros e emprego mensal é essencial, mas insuficiente. O Brasil precisa falar mais de demografia, cuidado e produtividade, pois é aí que se define o crescimento de médio prazo e a base para salários melhores.
De acordo com o IBGE, as transformações demográficas já estão em curso, e o relógio corre. A experiência de países que envelheceram antes indica que quem planeja cedo sofre menos ajustes bruscos depois.
O Ipea reforça que políticas de cuidado e qualificação têm efeito duplo, ampliando a participação feminina e elevando a produtividade. A OIT lembra que a transição demográfica bem-sucedida depende de diálogo social e de trabalho decente para sustentar o pacto entre gerações.
Em síntese, envelhecer não é o problema; o problema é envelhecer sem plano. Com coordenação entre governos, empresas e trabalhadores, o país pode transformar um risco silencioso em oportunidade de crescimento inclusivo.
Você concorda que economia do cuidado e envelhecimento deveriam estar no centro da pauta do emprego e dos salários, ou vê outras prioridades urgentes para o mercado de trabalho brasileiro? Deixe seu comentário e vamos debater caminhos realistas para sustentar crescimento, Previdência e renda nas próximas décadas.
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