Participação feminina segue aquém do pré-pandemia no Brasil, FMI isenta Bolsa Família e aponta creches insuficientes, informalidade e barreiras de cuidado como freios ao retorno ao trabalho
Relatório recente do FMI, citado pelo Valor Econômico, aponta que a queda na participação feminina no mercado de trabalho não se deve ao Bolsa Família e que entraves estruturais pesam mais
Mulheres brasileiras ainda não recuperaram totalmente a participação no mercado de trabalho observada antes da pandemia, e a explicação principal não está nos programas de transferência de renda. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), em análise relatada pelo Valor Econômico, a culpa não é do Bolsa Família.
O diagnóstico atribui a persistência da lacuna a fatores como cuidado infantil insuficiente, alta informalidade, desigualdade de tarefas domésticas e dificuldades de requalificação profissional. O FMI ressalta que os efeitos de programas de renda sobre a oferta de trabalho de adultos tendem a ser pequenos ou nulos, reforçando evidências já conhecidas na literatura.
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O tema é sensível para o debate sobre emprego, produtividade e crescimento econômico no Brasil. Entender as causas reais da menor taxa de participação feminina é chave para calibrar políticas públicas que funcionem e evitar diagnósticos que desviem o foco dos gargalos centrais.
O que diz o FMI sobre a participação feminina
De acordo com o FMI, a recuperação do emprego feminino foi mais lenta que a masculina em diversas economias, inclusive no Brasil, com as mulheres concentradas em setores mais afetados pela crise sanitária e pela reabertura desigual. A avaliação, reportada pelo Valor Econômico, indica que fatores domésticos e estruturais sustentam a defasagem.
O organismo ressalta que transferências de renda focalizadas, como o Bolsa Família, não aparecem como vetor relevante de desincentivo ao trabalho entre mulheres em idade ativa. Para o FMI, a escassez de creches e educação infantil em tempo integral, aliada à sobrecarga de cuidados com crianças e idosos, segue sendo um freio central ao retorno de muitas brasileiras ao mercado de trabalho formal.
Bolsa Família, evidências sobre impacto no trabalho
A posição do FMI converge com estudos nacionais. Pesquisas do Ipea e análises do Banco Mundial já apontaram que os programas de transferência de renda no Brasil tendem a ter impacto reduzido na oferta de trabalho de adultos, sobretudo quando os benefícios são baixos em relação ao salário potencial e quando a política é condicionada à frequência escolar e à saúde das crianças.
Segundo especialistas citados em avaliações acadêmicas, o Bolsa Família pode até facilitar a busca por emprego ao oferecer um piso de segurança de renda e mitigar a pobreza extrema, reduzindo a urgência por ocupações precárias de curtíssimo prazo. O desafio, reforçado pelo FMI, está mais em garantir serviços públicos de cuidado e qualificação, do que em alterar o desenho de benefícios.
Gargalos estruturais no Brasil travam a volta ao emprego
Entre os principais entraves destacados estão a oferta insuficiente de creches e a falta de vagas em tempo integral na educação básica. Para mães solo ou famílias de baixa renda, a decisão de aceitar um emprego depende diretamente da rede de cuidado disponível e de seu custo.
A informalidade elevada segue como barreira, sobretudo para mulheres com menor escolaridade, que enfrentam rotatividade maior, salários mais baixos e ausência de proteção social. Essa combinação reduz o incentivo ao retorno rápido e dificulta a progressão de carreira.
Há ainda um componente de desigualdade de gênero na divisão de tarefas domésticas. De acordo com o IBGE, mulheres dedicam consistentemente mais horas por semana a afazeres domésticos e cuidados não remunerados do que os homens, o que limita o tempo disponível para trabalhar e se qualificar.
Problemas de transporte, longos deslocamentos e a falta de políticas de segurança no trajeto e no trabalho também pesam mais sobre elas. Esses fatores, somados, ajudam a explicar por que a taxa de participação feminina segue aquém do pré-pandemia, segundo a leitura resumida pelo Valor Econômico a partir do FMI.
Por que isentar o Bolsa Família muda o foco do debate
Ao afirmar que a culpa não é do Bolsa Família, o FMI redireciona o debate para medidas com maior poder de impacto. Em vez de concentrar energia em cortar benefícios, a discussão passa a priorizar políticas de cuidado e a qualidade do emprego que se oferece às mulheres.
Isso tem implicações fiscais e sociais. Investimentos em creches, escola em tempo integral e capacitação técnica tendem a elevar a participação, a produtividade e a renda tributável, ajudando a compensar custos no médio prazo. É a lógica de atacar a raiz do problema, não o sintoma.
Medidas que podem acelerar a recuperação feminina no trabalho
Especialistas e organismos internacionais sugerem um pacote de ações: ampliar a rede de creches públicas e parcerias para vagas subsidiadas; expandir jornada escolar integral; e promover qualificação profissional voltada a setores dinâmicos, com ênfase em habilidades digitais.
Também entram na lista o estímulo à formalização, políticas de licença parental compartilhada, combate a assédio e discriminação no trabalho e melhoria de transporte seguro. Segundo experiências compiladas pela OCDE e por pesquisas do Banco Mundial, a combinação de cuidado acessível e incentivos à contratação feminina tem efeitos positivos sobre a taxa de participação.
No Brasil, governos locais vêm testando subsídios a creches e programas de intermediação de mão de obra. A avaliação do FMI, reportada pelo Valor Econômico, sugere que ampliar e integrar essas iniciativas pode ser mais eficaz para reduzir a defasagem feminina do que mexer em benefícios de renda.
Fontes FMI, reportagem do Valor Econômico; estudos do Ipea e do Banco Mundial; dados do IBGE sobre uso do tempo e participação no mercado de trabalho. Quando números específicos são necessários, eles devem ser consultados nas publicações originais mais recentes.
Como você avalia as medidas prioritárias para elevar a participação feminina no mercado de trabalho, ampliar creches e qualificação deve vir antes de mudanças em benefícios sociais?
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