Após anos fora dos mercados, reformas e ajuste fiscal abrem espaço para a Argentina mirar nova emissão de dívida externa, dizem analistas
Analistas ouvidos pelo Estadão avaliam que o avanço de reformas e do ajuste fiscal pode reabrir o acesso da Argentina ao mercado internacional de títulos, após a reestruturação de 2020 e anos de restrições
Após um longo período longe das captações externas, a Argentina volta ao radar dos investidores com a possibilidade de emitir dívida no mercado internacional. A leitura, destacada pelo Estadão em 9 de fevereiro de 2026, é de que a combinação de ajuste fiscal, reformas e normalização macro pode criar condições para uma volta gradual aos mercados.
Segundo o Estadão, casas de análise e gestores avaliam que, se a trajetória recente de consolidação fiscal e queda de incertezas continuar, o país poderá testar uma emissão ainda que em pequeno volume e com prazos mais curtos. A estratégia seria dar um sinal ao investidor e reconstruir credibilidade passo a passo.
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Hoje, a janela depende de fatores como o andamento da agenda no Congresso, a redução de controles cambiais e o fortalecimento das reservas internacionais. De acordo com avaliações de mercado citadas pela reportagem, a previsibilidade das regras e a execução das medidas são cruciais para reduzir prêmios de risco.
O movimento seria relevante para a economia real, pois ajudaria a balizar o custo de financiamento de empresas argentinas no exterior e sinalizaria uma etapa a mais de normalização após anos de volatilidade. Ainda assim, a cautela predomina e a volta plena tende a ser gradual e condicionada.
O que muda com as reformas econômicas e o ajuste fiscal
De acordo com o Estadão, o eixo das reformas mira a disciplina fiscal, a revisão de subsídios e a desburocratização, com impacto esperado sobre a percepção de risco soberano. Medidas de contenção de gastos e busca por superávit primário são vistas como pré-condição para qualquer retorno sustentável aos mercados.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem enfatizado, em avaliações públicas desde 2022, a importância de ancorar expectativas com regras claras, reduzir a emissão monetária e fortalecer reservas. Segundo o FMI, a previsibilidade e o compromisso fiscal são essenciais para estabilizar a moeda e a inflação.
Histórico recente da dívida soberana e o isolamento de mercado
A Argentina ficou afastada de emissões internacionais após a reestruturação de cerca de US$ 65 bilhões em títulos sob lei estrangeira em 2020, conforme comunicações oficiais da época e cobertura da imprensa econômica. O objetivo foi aliviar o serviço da dívida e ganhar fôlego em um cenário de restrições cambiais e escassez de dólares.
Os anos seguintes foram marcados por inflação muito elevada e controles no mercado de câmbio, o chamado cepo cambial, o que limitou a previsibilidade para investidores. Segundo dados do INDEC e relatórios públicos, a inflação anual superou 200% entre 2023 e 2024, pressionando a renda e os preços relativos.
Esse contexto manteve o país com custo de captação proibitivo e acesso prático fechado, com prazos curtos e taxas altas mesmo em eventuais sondagens. A normalização depende de trajetórias mais estáveis de inflação, reservas e atividade.
Condições de mercado, risco-país e rating ainda são desafio
A melhora do risco-país e do rating de crédito é vista como chave para uma emissão que seja economicamente viável. As agências S&P e Moody’s mantêm notas na faixa especulativa, refletindo o histórico de volatilidade e a incerteza sobre a execução das políticas, segundo comunicados públicos das próprias agências.
Uma primeira emissão, se ocorrer, tende a ser modesta e cara, servindo mais como teste de apetite do que como solução de financiamento. Segundo o Estadão, a leitura do mercado é que o governo buscará construir um histórico de cumprimento e previsibilidade antes de alongar prazos.
A redução consistente do prêmio de risco depende de sinais como o afrouxamento ordenado dos controles cambiais, recomposição de reservas do Banco Central da República Argentina (BCRA) e trajetória sustentável de dívida sobre PIB. Esses pontos são citados de forma recorrente por analistas e pelo próprio FMI em suas revisões.
Agenda cambial e reservas, por que são determinantes
O cepo cambial distorce preços e cria múltiplas taxas de câmbio, elevando a incerteza sobre fluxos em dólar. De acordo com economistas ouvidos pela imprensa especializada, um plano crível de normalização cambial, junto do reforço das reservas, melhora o canal de expectativas e o acesso ao crédito.
O BCRA tem buscado reduzir passivos remunerados e alongar perfis de vencimento doméstico, o que abre espaço para políticas menos dependentes de emissão monetária. Segundo o FMI, alinhar o regime cambial à disponibilidade de reservas e às metas fiscais ajuda a estabilizar a demanda por pesos e a suavizar a inflação.
Se esse ajuste prosseguir, uma emissão externa poderia ancorar a curva de títulos soberanos e criar referências para o setor privado. Porém, sem progresso nesses pilares, a janela tende a permanecer estreita e sujeita a reveses.
Impactos para empresas, crédito e economia real
Uma volta ainda que parcial ao mercado internacional de dívida pode reduzir o custo de capital de companhias argentinas com receitas em dólar, como exportadoras, infraestrutura e energia. Na prática, melhora o acesso a prazos mais longos e amplia a base de investidores.
Para o Tesouro, a sinalização de normalização pode diversificar fontes de financiamento e aliviar a pressão sobre o mercado doméstico. Segundo o Estadão, esse movimento seria interpretado como um passo simbólico de reconstrução de credibilidade, ainda que limitado.
No curto prazo, taxas devem permanecer elevadas e a seleção de projetos será rigorosa. A convergência para custos mais baixos depende de uma sequência de surpresas positivas em inflação, atividade, reservas e estabilidade regulatória.
Em síntese, a possibilidade de emissão volta ao debate porque as reformas e o ajuste mudaram a direção do risco percebido. Mas o teste real ocorrerá quando o país, de fato, tentar colocar um papel e verificar se a demanda é suficiente a preços sustentáveis.
O que você acha, a Argentina já tem base para retomar a emissão de títulos lá fora ou o risco ainda é alto demais para abrir essa janela agora? Deixe sua opinião nos comentários e diga quais sinais você considera indispensáveis para que o mercado internacional volte a financiar o país de forma duradoura.
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