Idoso que virou médico aos 90 anos celebra 92 com grande festa e vira símbolo nacional de que nunca é tarde para estudar
Goiano que se formou em Medicina aos 90 anos comemorou 92 com festa para 250 convidados em Goiânia. História de superação de Valdomiro de Sousa inspira idosos e jovens que sonham em voltar a estudar e mudar de carreira.
Aos 92 anos, o goiano Valdomiro de Sousa celebrou mais do que um aniversário. Ele comemorou a vitória de ter realizado, aos 90, o sonho de se formar em medicina, após uma vida marcada por pobreza, trabalho pesado e muitas tentativas frustradas de chegar à universidade.
A festa, realizada no domingo (16), em Goiânia, reuniu cerca de 250 convidados e teve clima de reconhecimento pela trajetória de persistência do aniversariante. Segundo a filha, a agropecuarista Karyna de Sousa Fonseca, cada detalhe foi pensado para celebrar um caminho que contrariou estatísticas e preconceitos ligados à idade.
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Valdomiro se tornou conhecido nacionalmente em 2024, quando concluiu o curso de Medicina em uma universidade particular de Goiânia depois de ser aprovado no vestibular aos 84 anos, após três anos de estudos intensos. Histórias sobre sua rotina de aulas, provas e plantões em plena terceira idade ganharam espaço em veículos como g1 Goiás e portais regionais.
O caso reacende o debate sobre envelhecimento ativo, direito à educação ao longo da vida e os limites – muitas vezes culturais, não físicos, que ainda afastam idosos das salas de aula e dos concursos mais disputados do país.
Infância pobre, trabalho pesado e o sonho de vestir o jaleco branco
Nascido em Caldas Novas (GO), Valdomiro ficou órfão de pai antes de completar 2 anos de idade. Sem estrutura financeira, precisou trabalhar desde muito cedo e viu o estudo virar um luxo distante, encaixado entre jornadas exaustivas.
Ao longo da juventude, ele foi carpinteiro, serralheiro, carroceiro, servente de pedreiro e auxiliar de limpeza, entre outras funções. As tarefas braçais garantiam o sustento, mas deixavam pouco tempo para os livros e para o sonho, cada vez mais adiado, de cursar medicina.
Aos 16 anos, mudou-se para Goiânia, onde fez curso técnico comercial e contabilidade. Em 1962, aos 29, interrompeu os estudos para trabalhar em um frigorífico, do qual se tornaria sócio. Foi a escolha possível para quem precisava garantir renda, mas também significou décadas de distância da universidade.
Vestibular, faculdade de Medicina e luta contra a pandemia e o AVC
O primeiro contato mais próximo com o sonho médico veio no fim dos anos 1950, quando Valdomiro foi ao Rio de Janeiro para fazer um curso pré-vestibular para Medicina. Ele chegou a prestar vestibular duas vezes, mas não passou. O fracasso momentâneo e a necessidade de trabalhar o afastaram da prova por muitos anos.
Já idoso, decidiu tentar novamente, desta vez em uma faculdade particular de Goiânia. Segundo reportagens do Diário do Estado e de Só Notícia Boa, ele estudou por três anos seguidos até ser aprovado no vestibular em 2018, aos 84 anos de idade.
Matriculado em Medicina, enfrentou desafios que jovens colegas não imaginavam. Durante a pandemia de Covid-19, em 2020, por estar no grupo de risco, passou a assistir aulas e fazer provas de casa, adaptando a rotina de estudos ao ensino remoto.
Faltando cerca de seis meses para a conclusão do curso, sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC), o terceiro de sua vida. De acordo com relatos reproduzidos por O Popular e por portais regionais, ele chegou a ir à faculdade tomando soro e nutrição intravenosa, acompanhado por um enfermeiro, para não perder aulas.
Mesmo com as sequelas, conseguiu concluir as disciplinas e realizar o sonho de se formar em Medicina aos 90 anos, em 2024. Para ele, cada degrau subido rumo à sala de aula era, nas próprias palavras registradas em livro, “uma vitória, uma dádiva”.
Livros, Direito e uma vida dedicada a provar que estudo não tem idade
Antes de pendurar o jaleco de estudante de Medicina, Valdomiro já tinha passado pela universidade em outra área. Ele se formou em Direito aos 75 anos, após cursar parte da faculdade ao lado da filha Karyna, na mesma instituição em Goiânia. Todos os dias, conta ela, ele passava na sala da filha para chamá-la para o intervalo na lanchonete.
A trajetória ganhou registro em duas obras autobiográficas. A mais recente, lançada em 2024, leva o título “Difícil foi a estrada por onde andei, mas com a graça de Deus venci” e reúne memórias da infância, dos anos no frigorífico e da volta à sala de aula na terceira idade.
Segundo reportagem do O Popular, o livro foi dedicado às filhas e aos netos e ressalta a importância da fé e da persistência.
Festa de 92 anos em Goiânia transforma história pessoal em símbolo coletivo
No domingo (16), toda essa trajetória se materializou em uma grande festa na Associação dos Magistrados do Estado de Goiás (Asmego), em Goiânia. A comemoração pelos 92 anos reuniu cerca de 250 convidados, entre familiares, amigos e pessoas impactadas pela história do médico recém-formado.
Karyna, que idealizou o evento, afirmou em entrevistas que o pai prestava vestibular “escondido”, com vergonha de contar que ainda insistia no sonho. Quando finalmente foi aprovado, a frase dele marcou a família: “Agora você trabalha, porque eu vou morrer médico”, lembrou a filha, em declaração reproduzida em reportagens locais.
Emocionada, ela define o pai como “o amor mais leal e bonito” que já viveu, reforçando o aspecto afetivo por trás da conquista acadêmica. Para a família, o diploma pendurado na parede representa, ao mesmo tempo, um ato de coragem individual e uma mensagem social poderosa para quem sente que “já passou da idade” de tentar algo novo.
Além da festa, a presença de Valdomiro nas redes sociais reforça o impacto da história. No Instagram, ele aparece estudando o sistema digestivo, lendo em voz alta sobre o sistema cardiovascular e interagindo com seguidores que se dizem motivados a prestar vestibular ou retomar os estudos, mesmo conciliando trabalho, filhos e outras responsabilidades.
Inspiração para outros idosos e o debate sobre envelhecimento ativo no Brasil
A história de Valdomiro ecoa em milhares de brasileiros que interromperam os estudos por causa da pobreza, da necessidade de trabalhar cedo ou da falta de oportunidades. Em um comentário que viralizou em seu perfil, a técnica de enfermagem Daniele Palomares contou que sonha em ser médica e continua prestando vestibular, apesar da rotina dupla de trabalho e das responsabilidades familiares.
Casos como esse dialogam com políticas públicas de educação ao longo da vida e com discussões sobre “envelhecimento ativo” defendidas por organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS). A ideia é que pessoas de 60, 70, 80 anos possam continuar aprendendo, trabalhando, empreendendo e participando da vida social com autonomia e dignidade.
Especialistas em educação de adultos apontam que exemplos concretos, como o de um idoso que se forma em Medicina aos 90 anos, ajudam a quebrar o estigma de que universidade é espaço exclusivo de jovens. Também pressionam instituições de ensino superior a pensarem em acessibilidade, apoio pedagógico e políticas de inclusão para estudantes idosos.
Para muitos, o caso de Valdomiro mostra que idade não deve ser barreira para vestibular, faculdade ou nova carreira, desde que haja condições mínimas de saúde, suporte familiar e adaptação do ambiente acadêmico. Outros, porém, questionam se o mercado de trabalho brasileiro está de fato preparado para absorver profissionais formados tão tardiamente, especialmente em áreas exigentes como a Medicina.
Diante dessa realidade, a trajetória do médico goiano acaba ganhando um caráter duplo: é, ao mesmo tempo, uma história de realização pessoal e um convite a repensar como o país enxerga o potencial produtivo e intelectual de sua população idosa.
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